Ano II – nº 77 – Fortaleza/CE – edição: 14.01.2010 |
Mineração: Negociações começam pressionadas por consumo chinês
Reajuste do minério de ferro pode atingir 50%
VALOR ECONÔMICO - Às vésperas do primeiro round de conversas formais entre mineradoras e siderúrgicas para fixar o novo preço do minério de ferro a vigorar em 2010, existe uma onda de revisões para cima das previsões iniciais. A forte recuperação dos mercados de minério e aço, impulsionados pela demanda da China e pela recuperação da economia mundial, está levando analistas de bancos e corretoras a reverem suas estimativas de reajuste para o minério para até 50%, conforme relatório divulgado ontem pelo Bank of America Merrill Lynch.
O Deutsche Bank reviu sua projeção de 13% para 36% para o minério da Vale, enquanto o Goldman Sachs e o Banif mantiveram suas previsões de alta de preço em 20% e o Credit Suisse em 15%. A Brascan Corretora, que trabalha com 20%, prepara-se para revisar esse número para cima nos próximos dias. O Banif e o Credit Suisse também fizeram previsões de alta do preço para 2011, considerando um reajuste acumulado do minério, em dois anos, na faixa de 32% a 40%, mais compatível com o ritmo de retomada dos mercados siderúrgicos fora da China, como Europa, Estados Unidos e Japão.
Rodrigo Barros, analista de mineração e siderurgia do Deutsche Bank, disse que as grandes mineradoras estão trabalhando para repor este ano a queda de preço que tiveram de amargar em 2009, de menos 28% para a Vale e menos 33% para as australianas BHPBilliton e Rio Tinto por conta da crise que abalou os mercados de commodities. Na sua análise, para voltar ao patamar de referência de 2008, os preços a serem negociados com as siderúrgicas teriam de subir no sistema de benchmark (preço de referência para contratos de longo prazo) 39% para o minério da Vale e 49% para os australianos.
Por esta razão, Barros trabalha com um cenário em que o preço a ser fechado este ano no benchmark volte a ficar muito parecido com o que era em 2008. Segundo ele, o mercado de minério ficou aquecido nos últimos três meses e o que era apenas uma probabilidade muito otimista virou realidade. Ontem, o preço do minério no spot chinês alcançou US$ 132 a US$ 135 a tonelada, indicando um prêmio de mais de 80% sobre o preço de referência pago pelo produto da Vale no mercado chinês, na faixa de US$ 82 incluindo o frete de US$ 26 por tonelada. "Foi uma mudança de paradigma que sinaliza um aperto na oferta de minério", avalia Barros. Segundo ele, o Deutsche trabalha com um déficit no mercado transoceânico de minério de 21 milhões de toneladas este ano.
Já nos cálculos do Bank of America Merrill Lynch o déficit no mercado global de minério em 2010 será da ordem de 58 milhões de toneladas. O banco trabalha com uma oferta de minério no mundo de 1,815 bilhão de toneladas, ante uma demanda estimada de 1,873 bilhão de toneladas. Para o Merrill Lynch esta tendência deve persistir até 2012. Os analistas, em geral, avaliam que há pouca capacidade de oferta de novo de minério este ano.
Na avaliação de Barros, do Deutsche, a Vale deverá colocar no mercado este ano 322 milhões de toneladas de minério, dos quais 7 milhões adquiridas de terceiros. "A Vale vai operar a plena capacidade e colocando zero de capacidade nova. Em 2011, deve acrescentar mais 10 milhões de toneladas. Em 2012 serão mais 30 milhões. Todas expansões de Carajás." BHP e Rio Tinto devem colocar juntas cerca de 280 milhões de toneladas no mercado, sendo 25 milhões de toneladas de capacidade nova. A australiana FMG deve desovar 37 milhões de toneladas e CSN, 40 milhões de toneladas, entre outras produtoras.
Além da disparada dos preços no mercado spot chinês - por conta de uma produção de aço prevista para a China este ano de 628 milhões de toneladas, na projeção do Deutsche, ou 640 milhões de toneladas na previsão do Credit Suisse, ante 565 milhões em 2009 -, os preços do aço estão se recuperando e podem subir até 17% no mercado chinês até setembro, segundo analistas. O fenômeno não é isolado. Relatório do Credit Suisse divulgado ontem destaca que estão ocorrendo aumentos do aço plano entre US$ 40 a US$ 50 a tonelada no mercado americano. Na Europa há uma reposição de estoques de aço.
As negociações de preço, conforme circula no mercado, estão começando no Japão e deverão se estender pela China e Europa. As mineradoras têm como interlocutores japoneses um grupo de siderúrgicas conhecido como JSM (Japan Steel Mills). Da parte da China a BaoSteel vai conduzir os acertos e, na Europa, a tendência é a ArcelorMittal assumir a liderança. As três grandes mineradoras (Vale, BHP e Rio Tinto) estão conversando com seus clientes isoladamente. E estão novamente divididas em relação a sistemática de preços.
A Vale continua defendendo o benchmark, enquanto a BHP é a favor do Index (cotações diárias em bolsa) e a Rio Tinto tende a acatar o benchmark. Há informações de que a Rio Tinto estaria com dificuldades de negociar com os chineses porque seu negociador e outro funcionário continuam presos na China, acusados de usar informações privilegiadas nas negociações que não se completaram no ano passado.
De acordo com informações recentes, as mineradoras estariam dispostas a negociar primeiro com o Japão e acertar um preço com as usinas locais para depois procurarem a China e apresentar o preço japonês como base de negociação. As usinas chinesas continuam rachadas entre mercado spot e benchmark. Por isso, o analista do Deutsche acredita que a Vale deve continuar flexibilizando sua comercialização de minério este ano, favorecida pela queda do frete do Brasil para a China, que caiu de US$ 40 para US$ 26 e pode baixar ainda mais dado o aumento de oferta de navios nessa rota.
China quer estrutura portuária para minério
A 1ª exportação de minério de ferro do Ceará será na 2ª quinzena de fevereiro. Parte da carga já está no Pecém
DIÁRIO DO NORDESTE (SÉRGIO DE SOUSA) - A primeira exportação de minério de ferro do Ceará está prevista para a segunda quinzena de fevereiro, sendo toda a carga levada para a China. Segundo Mário Lima Júnior, diretor de Desenvolvimento Comercial da Ceará Portos, responsável pelo Porto do Pecém, serão 70 mil toneladas. "Atualmente, já existem 32 mil toneladas de minério de ferro estocadas no Porto do Pecém, que estão vindo de Sobral por via férrea. Diariamente, chegam duas mil toneladas ao Porto, totalizando, até o dia 15 do próximo mês, 70 mil toneladas", fala. A previsão inicial era de que seriam comercializadas 75 mil toneladas.
Entretanto, a expectativa é elevar este volume e, para isso, a China já tem grandes planos para investimentos no Estado: a construção de uma nova estrutura portuária para escoar toda essa produção. Para discutir este e outros projetos, o embaixador do gigante asiático no Brasil, Qui Xiaoqi, reuniu-se ontem com o governo estadual.
"Existe a perspectiva, e é uma prospecção que não está fechada ainda, que é a parceria de uma segunda estrutura portuária aqui no Pecém operada pela China. Mas isso está sendo discutido ainda, está em negociação", informou o governador em exercício, Francisco Pinheiro, após a reunião com o embaixador, ressaltando que o projeto ainda não está posto no papel, mas que foi pauta do encontro de ontem.
"O Pecém está chegando à sua capacidade, e nós estamos inclusive o ampliando. Só a siderúrgica e a refinaria vão ser um grande impacto no porto. Hoje ele é o maior exportador de frutas do Brasil, e há uma tendência grande da economia, especialmente da região Centro-Oeste, de tirar o foco do Porto de Santos e vir para o Ceará, por questões simples, de distância e de economia. O Pecém é um porto moderno, o de Santos é um porto que ainda tem uma tradição antiga e que ainda não se modernizou, então estamos ganhando algumas economias importantes do Centro-Oeste", justifica Pinheiro.
ALTERNATIVAS
De acordo com o presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico do Estado (Adece), Antonio Balhmann, existem duas possibilidades analisadas para o investimento: fazer uma estrutura portuária paralela ao terminal de Pecém, ou dentro do próprio porto, com a construção de mais um píer de atração. "Hoje o porto se adequa à exportação de minério de ferro. Então, do mesmo jeito que o Estado investe para importar minério de ferro pra siderúrgica, há uma necessidade hoje de uma infraestrutura pra sair minério de ferro pra China", explica. A própria China, fala, é que bancaria o investimento.
O presidente da Adece adianta que o Ceará vem trabalhando em uma nova estratégia para o minério de ferro àquela adotada em Carajás, a maior mina do mineral no País. "O Ceará tem pequenas e diversas ocorrências de minério de ferro superficiais e de muito boa qualidade, e com a logística ferroviária passando entre elas. Então, não precisa de grande investimento. O nosso minério se torna competitivo exatamente porque a logística é barata, e o porto tá pronto, não precisa fazer uma grande ferrovia como foi feita em Carajás. É por isso que o Ceará hoje pode se tornar ator importante na exportação de minério de ferro", garante.
Balhmann acredita ainda que possa ser feito o escoamento da produção em outros estados próximos, como o Piauí, onde há ocorrências. O mineral seria, dessa forma, transportado pelo modal ferroviário até o Pecém. "Mas o mais importante é que o Ceará vai ter um fluxo de minério de ferro de grande quantidade, que pode gerar outras consequências na área da siderurgia no interior do Estado", disse, sem detalhar que consequências poderiam ser.
A exploração de minério de ferro no Ceará está sendo feita em Sobral, pela empresa chinesa Globest, que deveria ter escoado a primeira carga ainda no ano passado, mas acabou adiando o prazo para fevereiro deste ano. Espera-se que, ainda em 2010, o volume exportado seja de 150 mil toneladas. A mineradora começou a operar no município em março de 2009, e toda a sua produção já foi vendida à China. Parte dessa produção já se encontra estocada no complexo portuário do Pecém, à espera do navio transportador. O presidente da Adece, já afirmou, por várias vezes, que o Ceará tem capacidade para produzir 12 milhões de toneladas anuais do minério. Contudo, a atual estrutura portuária ainda não permite.
Montadoras chinesas têm interesse no Ceará
DIÁRIO DO NORDESTE - Entre as oportunidades de negócios existentes entre China e Ceará, o embaixador Qui Xiaoqi destaca investimentos no setor automobilístico, algo que já vem sendo buscado desde o início do governo Cid Gomes. Comitivas cearenses já visitaram países asiáticos em busca de trazer montadoras para solo cearense. As possibilidades, acredita-se, são reforçadas com a instalação da siderúrgica de Pecém.
"Algumas fábricas de automóveis da China tem muito interesse em se instalar aqui", confirma o embaixador. Mas, assim como o Ceará, vários outros estados e mesmo países - a exemplo do Paraguai, Uruguai e Venezuela - também passaram a brigar por estas unidades.
"É uma guerra tremenda, todos os percursos que nós fizemos na China na área de planta de automóveis, inclusive o governador, foram depois percorridos os mesmos caminhos por outros governadores de Estado. Então, mantemos em reserva, mas podemos dizer que há um avanço muito grande em ter uma possibilidade concreta de implantação de uma planta automobilística no Ceará", confirma Balhmann.
O governo do Estado não informa o nome das empresas prospectadas, por questões estratégicas, mas as chinesas Chery (a maior do País) e JAC já anunciaram o interesse em instalar uma unidade no Brasil, sem entretanto definir onde. Ao anunciar o interesse em construir uma fábrica no País, o presidente da Chery no Brasil, Luís Curi, citou o Ceará como possibilidade, sendo o único do Nordeste a ser apontado. A planta teria capacidade para produzir 150 mil carros/ano, com investimento de US$ 500 milhões e podendo empregar mais de 10 mil pessoas. Além destas, também se fala no interesse da BYD, que dedica-se hoje à produção de automóveis híbridos (movidos a gasolina e baterias elétricas).
Segundo Balhmann, a ideia é que a montadora esteja em funcionamento até 2015. "Portanto, temos que começar uma planta dessas no máximo até 2011, pra em 2015 estar operando", diz. Caso o governo consiga atrair a usina de laminados, como segunda etapa da siderúrgica, o aço produzido aqui poderia subsidiar um polo metal-mecânico no Ceará. (SS)
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