Ano II – nº 173 – Fortaleza/CE – edição: 29.07.2010 |
Aço: Siderurgia vai ter novo sistema de reajustes
VALOR ECONÔMICO - O Instituto Aço Brasil (IABr) acredita que o setor siderúrgico brasileiro terá de passar por período de "aprendizado" em relação ao novo sistema de reajustes trimestrais para o minério de ferro e prevê que deverão ocorrer aumentos nos preços por conta da pressão com as elevações de até 100% do valor do insumo, que juntamente com o carvão representa 50% dos custos da produção de aço.
"Evidente que algum aumento terá de ocorrer. Em que momento e intensidade, não sabemos", diz o presidente executivo do IABr, Marco Polo de Mello Lopes, que apresentou ontem o balanço semestral da produção siderúrgica no país.
Segundo ele, o novo modelo de reajuste trimestral do minério de ferro, baseado nas cotações do mercado spot asiático, preocupa as usinas, que até então negociavam anualmente os novos patamares de preços e tinham negociações anuais com seus clientes. "Alguns falam em reajuste mensal (para o minério), com o qual não concordamos", disse Lopes.
As projeções do IABr apontam que a importação e o consumo aparente de aço no país atingirão níveis recordes em 2010. De acordo com os dados apresentados pelo instituto, as importações de aço fecharão o ano em 4,150 milhões de toneladas, 78% acima dos 2,332 milhões de toneladas importadas no ano passado e 56,25% superiores ao recorde anterior, de 2,656 milhões de toneladas em 2008.
Para Lopes, a alta das importações reflete fatores como apreciação do real, aquecimento da demanda no país e excesso de oferta no mercado internacional. "Esses dados só ratificam que não precisamos ter artificialismos como alíquota de importação zerada."
O executivo afirmou que o aumento das compras externas acontece em todas as faixas de produtos. Lopes rechaçou a ideia de que as recentes importações para construção dos navios que serão utilizados pela Transpetro tenha impacto significativo nos números.
Segundo o IABr, do total de 2,732 milhões de toneladas importadas no primeiro semestre, 107,18 mil toneladas corresponderam à compra de chapas grossas - tipo de aço usado nos cascos dos navios - nos três primeiros meses do ano. O volume de chapas grossas importadas foi 74,5% superior às 61,313 mil toneladas dos três primeiros meses de 2009.
Lopes também chamou a atenção para o que batizou de faceta "especulativa" do aumento das importações. De acordo com o executivo, distribuidores importaram aço apostando em um aumento dos preços no país. "Muitos trouxeram material achando que teria alta substantiva do aço, o que não ocorreu e agora estão empanturrados de aço, que nem jiboias."
Outra previsão recorde feita pelo IABr foi para o consumo aparente, que deverá atingir 24,980 milhões de toneladas este ano, 34,5% acima das 18,576 milhões de toneladas de 2009. O instituto estima em 33,161 milhões de toneladas a produção nacional de aço bruto em 2010, 25,1% acima das 26,506 milhões de toneladas de 2009.
No primeiro semestre, a produção de aço bruto no Brasil atingiu 16,380 milhões de toneladas, alta de 55% frente às 10,565 milhões de toneladas de janeiro e junho do ano passado. As importações aumentaram 148,4% na comparação com os seis primeiros meses de 2009, de 1,1 milhão de toneladas para 2,732 milhões de toneladas.
Mittal eleva preço para compensar alta do minério
VALOR ECONÔMICO - A ArcelorMittal, maior siderúrgica do mundo, informou tentará elevar o preço do aço em 10% este ano para preservar o lucro, embora espere que a demanda enfraqueça na maior parte do mundo. "Nós precisamos de um reajuste de 10% nos negócios à vista para reproduzir o nível de lucro do segundo trimestre", disse o presidente da empresa, Lakshmi Mittal, ao "Wall Street Journal".
A empresa, que fechou o segundo trimestre com lucro líquido de US$ 1,7 bilhão, ante prejuízo líquido de US$ 792 milhões um ano antes, está indo na direção contrária de outras siderúrgicas. Mittal disse que o aumento de preços é necessário para cobrir os altos custos das matérias-primas.
Mittal disse que renegociou alguns de seus contratos com montadoras. "Em alguns casos para os novos contratos, tivemos sucesso em repassar nossos custos mais altos da matéria-prima", disse. A ArcelorMittal afirmou que os custos do minério do ferro estão subindo desde o início do ano. Os preços do minério aumentaram 9% no segundo trimestre, em comparação com o primeiro.
De uma forma geral, os preços vinham subindo graças à recuperação da economia mundial e ao fortalecimento da demanda no mundo todo. Mas as siderúrgicas elevaram a produção rápido demais, o que causou uma queda nos preços do aço, especialmente no mês passado. Dependendo do mercado ou tipo de produto, os preços do aço encolheram cerca de 8% a 10% nas últimas semanas. Alguns analistas de siderurgia esperam que os preços continuem caindo no terceiro trimestre e, talvez, também no quarto trimestre.
Tentar elevar preços quando a demanda está começando a se desaquecer é arriscado. Os rivais podem cobrar valores mais baixos. A ArcelorMittal acredita que a indústria vai reduzir a produção para ajustar a oferta à demanda e manter os preços firmes. A Arcelor paralisou três altos-fornos na Europa e três nos EUA, mas deve reativar em Indiana porque a demanda permite, disse ele.
Mittal admitiu que este é um ambiente difícil para reajustar preços. "Este será o nosso desafio", disse, explicando que um grupo de executivos vai procurar os clientes e explicar a situação de custos.
Os preços do aço variam bastante. No caso do aço carbono laminado na Europa, um dos maiores segmentos de negócio da Arcelor e usado pela indústria automotiva, os preços ficaram em média em US$ 776 por tonelada no segundo trimestre, 2,5% acima do primeiro.
Mittal disse que já percebe sinais de enfraquecimento no mercado, à medida que o consumo na China cai e os compradores europeus reduzem a demanda, em parte por causa do desaquecimento sazonal e por conta da letargia geral da economia.
A utilização da capacidade, ou a taxa geral de produção de cada usina, deve cair no terceiro trimestre para cerca de 70%, informou a empresa. No segundo trimestre, a empresa estava trabalhando com até 78% da capacidade. No primeiro trimestre, a ocupação era de 72%.
De uma forma geral, as usinas precisam utilizar 60% da capacidade para atingir o equilíbrio financeiro. Uma taxa de produção de 70% não oferece muito espaço para o lucro e Mittal disse que a empresa vai tentar anular os efeitos das taxas mais baixas de utilização com preços mais altos do aço.
Mittal não espera que o desaquecimento na China seja prolongado. Ele prevê que o consumo global de aço esteja caminhando para crescer 10% nos próximos anos. O mundo consome cerca de 1 bilhão de toneladas de aço por ano.
As operações da ArcelorMittal nos Estados Unidos estão mais fortes em comparação às europeias, disse Aditya Mittal, diretor financeiro da empresa. Ele falou que a utilização da capacidade nos EUA vai na realidade aumentar, por causa dos planos de reativar um alto-forno. "O desaquecimento do verão é mais pronunciado na Europa que nos EUA", acrescentou.
As siderúrgicas europeias têm disparado alarmes sobre a demanda de aço e a queda dos preços. Na semana passada, elas informaram que o segundo trimestre será o ponto mais alto dos lucros no ano.
Nos EUA, as siderúrgicas estão relatando aumento dos estoques e afirmando que vão cortar a produção se a demanda não se recuperar em breve. A US Steel, maior dos EUA por produção, apresentou prejuízo de US$ 25 milhões no segundo trimestre, o sexto seguido de perdas.
A sul-coreana Posco, terceira maior siderúrgica do mundo, e a japonesa Nippon Steel, quarta maior, alertaram que seus lucros cairão no ano, com preços mais baixos para o aço e demanda menor da China.
Volumes e preços mais altos no segundo trimestre contribuíram para que as vendas da ArcelorMittal aumentassem para US$ 21,7 bilhões, 43% acima do registrado no mesmo período de 2009 e 16% mais do que no primeiro trimestre. As entregas de aço subiram 6%, para 22,8 milhões de toneladas, ante 21,5 milhões no primeiro trimestre.
A empresa também informou que está estudando o desmembramento da sua unidade de aço inoxidável para atacar o problema de excesso de capacidade na Europa.
Arcelor estuda ampliação
VALOR ECONÔMICO - A diretoria da ArcelorMittal no Brasil prepara uma proposta para ser levada aos acionistas da companhia que prevê o aumento da capacidade de laminação no país. De acordo com o diretor-comercial, Gustavo Humberto Fontana, poderá haver a construção ou a expansão da unidade na região de Tubarão, no Espírito Santo, para laminar os 3,5 milhões de toneladas de placas que são exportadas anualmente.
"Poderemos nos manifestar sobre isso até o fim do ano", disse Fontana. "Estamos sempre revisitando o crescimento do país e as necessidades da demanda."
Metais: Estudo mostra que já foram investidos US$ 2 bi por chineses em minas no Brasil este ano
Cresce interesse chinês no minério brasileiro
VALOR ECONÔMICO - Os chineses estão de olho no mercado brasileiro, principalmente na área de mineração. Em 2010, segundo levantamento da Heritage Foundation e da consultoria Strategus, os investidores asiáticos já gastaram quase US$ 7 bilhões em compras de ativos no Brasil, dos quais US$ 2 bilhões na aquisição de três minas de minério de ferro. Foram adquiridos 20% da MMX Mineração pela siderúrgica Wuhan; a mina de Itaminas, em Minas Gerais, adquirida por US$ 1,2 bilhão; e outra mina de minério de ferro, de propriedade da Votorantim Novos Negócios, do projeto Salinas, na Bahia, terá a negociação concluída com a Shandong Iron & Steel após a finalização dos estudos de viabilidade e geológicos em andamento, informou Rodrigo Maciel, consultor de mineração e siderurgia da Strategus.
O executivo, que trabalhou durante quatro anos no Conselho Empresarial Brasil-China, visita aquele país pelo menos cinco vezes ao ano. Maciel disse que atualmente o interesse dos investidores chineses pelas minas brasileiras aumentou bastante e, no mínimo, duas delegações de empresas chinesas têm aportado mensalmente no Brasil em busca de oportunidades de negócios no setor. O consultor não vê com o mesmo entusiasmo investimentos chineses em usinas siderúrgicas no Brasil, já que a China tem um excedente de capacidade nominal de produção de aço calculado entre 100 milhões a 200 milhões de toneladas anuais.
Na sua análise, a construção de uma usina de aço pela Wuhan, no Porto Açu, em São João da Barra (RJ), é uma diversificação estratégica dos chineses para vender placas e produtos acabados de aço no mercado brasileiro, dadas as boas perspectivas da demanda doméstica nacional aquecida pelos eventos da Copa do Mundo, em 2014, das Olimpíadas em 2016, e dos negócios com o Pré-Sal. "Em geral, os chineses acham que investir em indústria no Brasil, principalmente aço, é problemático por causa da tributação e dificuldade para trazer trabalhadores chineses para o país."
A perspectiva de desaquecimento da economia da China no curto prazo, fantasma que voltou a assustar os mercados na semana passada, é vista por Maciel como remota. Em estudo de sua autoria, intitulado "Por quê a China está olhando a América Latina?", o executivo levanta o fato de o gigante asiático ser menos movido a exportações do que em geral se supõe. "As principais alavancas do crescimento do PIB chinês nos últimos 20 anos são o investimento fixo - com construção (civil e pesada) respondendo por 65% - e o consumo das famílias - incluindo despesas do governo."
O investimento, principalmente em infraestrutura, garante o andamento do colossal plano de urbanização do governo chinês, destaca o executivo. De acordo com pesquisa da consultoria McKinsey, citada no paper de Maciel, as autoridades chinesas planejam transferir 400 milhões de pessoas do campo para a cidade até 2025, o equivalente a dois Brasis. A meta das autoridades locais é ter 64% da população vivendo em centros urbanos nos próximos 15 anos.
"Esse processo pode levar a uma mudança qualitativa de hábitos de consumo na transição da vida rural para a vida urbana", comenta Maciel. Para ele, o fato indica mais consumo e consequentemente maior produção de bens duráveis como geladeiras, fogões, máquinas de lavar e automóveis, dentre outros. "A produção de veículos em 2025 está sendo estimada em 32 milhões de veículos contra os 16 milhões atuais, ou seja o dobro". O processo de urbanização inclui ainda a proliferação de novas cidades na China. Pesquisa citada por Maciel , estima que o número de megacidades com mais de 10 milhões de habitantes vai saltar de duas, em 2005, para oito, em 2025. Os municípios considerados grandes, com população entre 5 a 10 milhões de pessoas, vão aumentar de 12 para 15 no período avaliado. As cidades de médio porte (entre 1,5 milhão e 5 milhões de habitantes) são as que vão expandir mais, de 69 para 115.
"Esse processo de urbanização, já em marcha, garante à China potencial para manter crescimento sustentável pelos próximos 15 anos, demandante de minério de ferro e aço", prevê Maciel. Segundo ele, relatórios do Banco Mundial e do Forum Econômico Mundial projetam patamar de crescimento do PIB chinês entre 2020-2025 na casa de 7% a 9%, abaixo dos atuais 10% a 11%, mas ainda razoável para um país mastodôntico como a China, onde tudo é colossal.
Novo plano do setor pede maior agregação de valor no país
VALOR ECONÔMICO - O Plano Mineral 2030, que será lançado na segunda quinzena de agosto, estima que a produção brasileira de minério de ferro vai atingir 1 bilhão de toneladas ao ano daqui a 20 anos. O volume estimado é 150% superior às cerca de 400 milhões de toneladas produzidas no ano passado. Já a produção de aço deverá crescer 288,67%, passando das 26,5 milhões de toneladas de 2009 para 103 milhões de toneladas em 2030.
Os dados preliminares foram apresentados ontem pelo diretor de transformação e tecnologia mineral do Ministério de Minas e Energia, Fernando Lins, durante o 65º Congresso Internacional da Associação Brasileira de Metalurgia, Minerais e Mineração (ABM), no Rio. Ele defendeu ainda a maior agregação de valor ao minério extraído no país. Segundo Lins, o Brasil exportou no ano passado 282 milhões de toneladas de minério de ferro, o que gerou US$ 16 bilhões em recursos. Porém, afirmou, isso significou exportação de 350 mil empregos para a produção de aço em outros países.
Lins lembrou que para cada um milhão de toneladas de minério de ferro produzidas são gerados 100 empregos, enquanto na siderurgia chega a 2000 empregos para 1 milhão de toneladas de aço. Na cadeia do alumínio, a mineração de bauxita gera 120 empregos por milhão de toneladas, enquanto a metalurgia de alumínio gera 11 mil empregos para o mesmo volume. Isso teria levado à exportação de outros 15 mil empregos.
"Quando o minério sai direto da mina (para o exterior), gera tudo isso (em emprego) lá fora. Deve haver uma preocupação em incentivar a agregação de valor no país", frisou Lins, para quem apenas o Congresso teria poderes de fazer mudanças na tributação do setor mineral para incentivar a agregação de valor no país.
Segundo ele, a exportação de minério tem o benefício da desoneração de ICMS e uma empresa que exporta diretamente a produção paga entre 18% e 20% de impostos. Já uma siderúrgica, que agrega valor no país, tem carga tributária de 35% a 38%. "A questão é complexa e a solução não é trivial", observou, lembrando que a indústria mineral responde por cerca de 4,2% do PIB do país.
Os dados preliminares do Plano Mineral 2030 consideram expansão do PIB do país a uma taxa de 5,1% ao ano, enquanto a economia mundial deverá avançar na média de 3,8% ao ano. Com isso, o país deverá passar de um PIB de US$ 1,65 trilhão estimado para este ano para US$ 4,47 trilhões em 2030.
Siderúrgicas ensaiam recuperação
VALOR ECONÔMICO - Os resultados dos balanços de mineradoras e siderúrgicas no segundo trimestre do ano começam a ser conhecidos amanhã, quando serão divulgados os números da Vale e da Usiminas. Os dados vão confirmar a forte retomada nos negócios dessas empresas, que tiveram o desempenho bastante abalado pela crise global em 2009. O ambiente de negócios foi mais propício às mineradoras, como a Vale, que passaram com louvor no primeiro teste de aplicação da nova fórmula de reajuste do preço do minério, que subiu mais de 100% no período. As siderúrgicas tiveram sucesso no aumento do volume de vendas, mas foram atropeladas pela alta das matérias-primas e incerteza nos preços externos do aço.
Na média das projeções dos analistas do Bradesco BBI Equity Research, da Planner Corretora e da SLW Corretora, a Vale deverá apresentar lucro de R$ 5,1 bilhões no período, o que representa um crescimento de 248% na comparação com o segundo trimestre de 2009. O resultado é turbinado pelo aumento de mais de 100% no preço da tonelada do minério de ferro, que passou a vigorar em maio, calculado com base numa nova fórmula de reajuste trimestral de preço, o Iodex. O reajuste trimestral baseado no comportamento do preço spot chinês passou a vigorar em maio, depois de decretada a morte do "benchmark" - conhecido como preço de referência com reajuste anual para contratos de longo prazo e vigorou até 2009.
As siderúrgicas tiveram seus lucros impulsionados muito mais em função do volume de vendas no mercado interno do que dos preços. No mercado internacional, o aço chegou a apresentar queda de preço entre abril e junho. No mercado interno, reajuste médio de 10% que passou a vigorar em abril para os produtos siderúrgicos de Usiminas e CSN não se refletirá em cheio neste segundo trimestre. Em compensação, o aumento de produtos vendidos ajudou a elevar a margem lajida (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), mostrando uma boa performance operacional das empresas.
A Gerdau, segundo o relatório do Credit Suisse, embarcou no período 4,3 milhões de toneladas de aços longos de suas várias fábricas globais, ou 30,1% a mais que no segundo trimestre de 2009. O grupo gaúcho, que amargou prejuízo em 2009, deve reverter para um lucro de R$ 667 milhões, estimado na média das projeções dos analistas da Link Corretora, Itaú Securities, Barclays Capital, SLW Corretora e Credit Suisse, consultados pelo Valor.
As prévias dos analistas apontam a CSN como a maior margem lajida do período entre as siderúrgicas, na faixa média de 44%, resultante de uma forte contribuição do preço do minério de ferro vendido pelas minas de Namisa e Casa de Pedra. Foram embarcadas 6 milhões de toneladas de minério a um preço estimado em relatório do Barclays de US$ 96 a tonelada FOB de minério. O lucro médio da companhia previsto em R$ 769 milhões deve apresentar um aumento de 129,5% ante o segundo trimestre de 2009.
A Usiminas, que teve que cortar produção no ano passado por causa da crise, também reverteu essa tendência negativa e deve ter lucro neste segundo trimestre na faixa de R$ 387 milhões, 4,9% acima do mesmo período de 2009. A siderúrgica deve o resultado a um expressivo volume de vendas, que somou 1,8 milhão de toneladas no trimestre, segundo relatório do Credit Suisse, o equivalente a 600 mil toneladas mensais.
Na avaliação da Link Corretora, a Usiminas ainda está operando abaixo de sua capacidade nominal de produção, de 9,5 milhão de toneladas anuais ou quase 800 mil toneladas por mês, e tem espaço para ampliar as vendas, principamente de chapa grossa, cujo mercado está meio parado. Com isso, a siderúrgica pode recuperar ainda mais sua margem lajida, estimada na média em 24,7% para o segundo trimestre de 2010, ante uma margem lajida de 4,9% no mesmo período do ano passado.
Céu de brigadeiro para o minério, mas incerto para o aço
VALOR ECONÔMICO - Depois de reajustar o minério de ferro em mais de 100% no segundo trimestre do ano, quando o preço da tonelada vendida a seus clientes deve ter se aproximado dos US$ 103 a US$ 110, a Vale ainda tem muito a ganhar.
Na expectativa dos analistas, o terceiro trimestre que está em curso deverá ser o melhor do ano para a companhia. Após um novo reajuste de 35%, o minério da Vale neste período vem sendo negociado em torno de US$ 145 a tonelada. E as vendas nunca estiveram tão fortes. A companhia está operando a sua capacidade plena de 300 milhões de toneladas.
Para o quarto trimestre, ainda há duvidas sobre um novo reajuste, já que o preço é calculado pela Vale com base na média trimestral praticada no mercado à vista (spot) chinês no trimestre anterior. Apesar da queda do preço do minério no spot na China entre junho e julho, que chegou a surpreendentes US$ 116 a tonelada num ambiente de demanda aquecida, o spot voltou a se recuperar e ontem chegou a faixa de US$ 134 a tonelada no mercado da China. Se o spot continuar a subir poderá evitar que o preço do minério negociado com os clientes da Vale fique estável ou caia de outubro a dezembro.
Analistas, porém, avaliam que ainda há bastante incerteza na aceitação desta formula de reajuste trimestral do minério pelas siderúrgicas globais. A desconfiança advém do fato de que o mercado do aço não está "bombando" como o do minério, que tem na China seu maior cliente.
Enquanto o curto prazo sorri para as mineradoras, as siderúrgicas estão ainda vivendo sob o signo da incerteza. A recente queda do preço do aço na China acentuou esse sentimento, apesar de ter havido uma alta de 5% nesta semana. Na avaliação dos analistas consultados pelo Valor, o cenário para os próximos trimestres não é de todo positivo para as siderúrgicas.
O preço do aço no mercado internacional está oscilando bastante, mercados como os da Europa e dos Estados Unidos estão ainda em fase de recuperação, e o mercado interno, cujas vendas para aços longos estão bem favorecidas, está às voltas com um superestoque de aços planos da ordem de 1,3 milhão de toneladas em poder das distribuidoras. Isso sinaliza uma guerra de preço para desova do produto.
O preço do aço plano no mercado doméstico, na ótica dos analistas, deverá ficar estagnado até o final do ano. Será difícil tentar repassar aumentos de preços. O governo, aliás, já havia alertado as usinas, ameaçando com alíquota zero de importação do produto quando elas manifestaram intenção de adotar reajustes trimestrais para acompanhar o preço do minério. As projeções para o próximo balanço das siderúrgicas brasileiras indicam margens de ganhos menores. A não ser que tenham minério próprio, como a CSN e agora, a Usiminas.
Venda de máquinas e equipamentos sobe 13%
VALOR ECONÔMICO - A indústria nacional de máquinas e equipamentos fechou o primeiro semestre com crescimento de 13,2% no faturamento, que alcançou R$ 33,9 bilhões, em comparação ao mesmo período do ano passado. Apenas em junho, o desempenho foi de R$ 6,16 bilhões, quase 8% acima do resultado obtido um ano atrás, conforme balanço da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) divulgado ontem. Sobre maio, as vendas de junho cresceram 8,4%.
Conforme a entidade, as exportações subiram 6,5% até junho, com US$ 4,04 bilhões, porém foram inferiores aos US$ 5,36 bilhões do primeiro semestre de 2008, quando o setor ainda não sentia os impactos da crise financeira. Por outro lado, as importações de bens de capital pelo Brasil atingiram US$ 10,65 bilhões no período, 14,6% acima de igual período do ano passado.
A China respondeu por 11,7%, nível próximo ao da Alemanha (12,5%). O avanço dos produtos chineses no país cresce mês a mês. No primeiro semestre, as importações de máquinas e equipamentos da China subiram 57,9%. Os Estados Unidos seguem como principal origem das importações brasileiras, com 26,2% do total.
Com o crescimento das importações, superando as exportações, o setor acumulou déficit comercial de US$ 6,61 bilhões no semestre, 20,2% acima do mesmo período de 2009, quando houve déficit de US$ 5,5 bilhões.
Os dirigentes da entidade estimam em R$ 67 bilhões o impacto nos investimentos a partir das iniciativas do governo no âmbito do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), que melhorou as condições de financiamento dos bens de capital. A conta considera a estimativa de crescimento da economia brasileira em 7,7%, aliada à tendência de que a formação bruta de capital fixo do país ficará em 19% neste ano. Sem o apoio do PSI, a taxa dos investimentos para capital produtivo ficaria dois pontos percentuais abaixo disso, em 17%, diz a Abimaq.
Lançado em meados do ano passado, o programa - que inclui juros de 5,5% ao ano nos financiamento de máquinas e equipamentos - foi estendido até dezembro, mas o setor defende a manutenção dessas medidas no próximo ano, quando um novo governo tomará posse. Ontem, durante a apresentação dos resultados da indústria de bens de capital em junho, a entidade apontou que os investimentos gerados pelo PSI devem garantir neste ano a criação de aproximadamente 210 mil empregos diretos.
Ao comentar os números do primeiro semestre, o presidente da Abimaq, Luiz Aubert Neto, atribuiu a recuperação do setor no período à manutenção do programa. Como as exportações ainda mostram comportamento tímido, é justamente o crescimento da demanda interna que tem sustentado as vendas do setor.
O nível de emprego da indústria subiu 5,8%, para 244.651 pessoas em junho. "O empresários acreditam nos investimentos no pré-sal, no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), na Olimpíada de 2016, na Copa do Mundo de 2014 e no trem-bala", destacou. No mês passado, a utilização da capacidade instalada no setor chegou a 83,6%, acima dos 80,8% de um ano atrás.
Indústria de peças queria fim imediato do redutor
VALOR ECONÔMICO - A balança comercial da indústria de autopeças deve iniciar o próximo ano comprometida, apesar do fim anunciado do redutor da alíquota do imposto de importação dos bens do setor. Na avaliação de Paulo Butori, presidente do Sindipeças, entidade que representa os fabricantes nacionais de componentes automotivos, o fato de a eliminação do redutor do imposto de importação ser gradual não vai promover alívio nas importações no curto prazo. "Há muitos segmentos, como o de rodas, que estão sofrendo bastante com a concorrência externa e isso será mantido nos próximos meses", afirmou o presidente do Sindipeças.
Pela Medida Provisória publicada ontem o redutor, que hoje é de 40%, continuará vigorando até o próximo dia 31 de julho. Depois, de 1º de agosto até 20 de outubro de 2010, ele será de 30%. No começo de novembro, o redutor cairá para 20% e permanecerá nesse percentual até 30 de abril de 2011, acabando em 1º de maio de 2011. A renúncia tributária com a medida será de R$ 132,35 milhões. A decisão de fixar o cronograma e prorrogar o fim imediato do redutor atende à pressão das montadoras, que argumentavam que a medida poderia provocar aumento de preços no mercado interno.
Para o empresário, o fim do redutor, assunto que foi negociado desde o início do ano entre governo e indústria, é positivo. "Inicialmente, a proposta era de queda integral ainda neste ano. Ao menos o pleito foi atendido", acrescentou.
Para este ano, o Sindipeças trabalha com expectativa de déficit recorde de US$ 3,923 bilhões, com embarques de US$ 9,601 bilhões e importações de US$ 13,524 bilhões. Antes, a expectativa era de um saldo negativo menor, de US$ 3,6 bilhões. Em 2009, conforme dados preliminares da entidade, o déficit da indústria ficou em US$ 2,488 bilhões. "2011 começa com uma previsão de déficit ainda maior", disse Butori.
A entrada crescente de importados e a crise financeira, que atingiu em cheio a indústria automobilística mundial, reduziram a capacidade de investimento das autopeças nacionais, especialmente nos dois últimos anos. Conforme Butori, os aportes previstos para este ano deverão superar os US$ 900 milhões aplicados em 2009 e somar US$ 1,33 bilhão. "A indústria não consegue acompanhar as montadoras por um motivo simples: não tem lucro", disse.
Nas próximas semanas, o Sindipeças vai divulgar um amplo estudo sobre os gargalos existentes nos 13 segmentos do setor de componentes, resultantes sobretudo da perda de competitividade da indústria nacional. |