Ano II – nº 166 – Fortaleza/CE – edição: 15.07.2010 |
DESINDUSTRIALIZAÇÃO: Empresas apelam a importados e temem futuro
VALOR ECONÔMICO - Caso exemplar das adaptações na indústria do país, a Black&Decker, uma das principais empresas de eletrodomésticos de ferramentas no Brasil, prevê faturar US$ 470 milhões neste ano, quase 13% acima do faturamento em 2009 e bem além dos R$ 400 milhões de 2000. Mas vai exportar 20% a menos que no ano passado, produzirá 5,4 milhões de unidades, 400 mil a menos que em 2000, e passou a importar da Ásia produtos que fabricava localmente para venda no mercado interno brasileiro.
"O faturamento com a produção local foi substituído pelos ganhos com os importados", comenta o diretor de operações da Black & Decker, Domingos Dragone. Graças à barreira antidumping imposta a produtos da China, a empresa preservou a produção de ferro de passar, que vinha sendo reduzida "drasticamente" três anos atrás, mas produtos de menor saída, como faca elétrica e espremedor de fruta são 100% importados, diz ele. "Costumávamos fazer grill (tostadeira) aqui, hoje importamos tudo, 200 mil unidades por ano. Em ferramentas industriais, passamos a importar 65%, e algumas, como serra-mármore são totalmente importadas."
Dragone conta que já foi pior. Em 2007, a queda na competitividade em relação aos produtos chineses, mais baratos e subsidiados, quase levou ao abandono de linhas de produção inteiras. "Ainda fabricamos 60%, para 40% de importados. Essa relação já foi de 80% para 20% e caminhamos para 50% a 50% até o fim do ano", conta. O quadro de funcionários, 700 pessoas, é ligeiramente menor que os 800 de anos atrás, mas atividades antes terceirizadas, como usinagem de peças, agora são feitas na fábrica. Na prática, eliminaram-se 200 empregos na produção.
"Na indústria de máquinas e equipamentos há empresas que já tiveram 300 funcionários. Hoje têm 20, e o faturamento e rentabilidade triplicaram", diz o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimac), Luiz Aubert Neto. Ele comenta que os setores protegidos por tarifas de importação de 35% ainda mantêm percentual grande de produção local, como no caso do automotivo, mas, mesmo nesses casos, os fornecedores de partes e peças têm cedido à concorrência estrangeira. "Já não há praticamente produtora de autopeças de origem nacional. No setor aeronáutico, a Embraer tem engenharia própria, mas importa a maior parte dos componentes com tecnologia embarcada", diz, lembrando que o Brasil já foi o quinto maior fabricante mundial de máquinas e, hoje, é o 14º .
"Os equipamentos para Belo Monte serão todos importados, não temos preço para competir", comenta Humberto Barbato, da Abinee. "Em breve aparecerão, nas estatísticas, as importações de equipamentos, de negócios que a indústria nacional perdeu", prevê. A Abinee iniciou estudos para mostrar que, por baixo dos dados otimistas, há preocupantes indicadores negativos em setores importantes da indústria. "Há claramente um processo de desindustrialização acelerado", endossa o economista Márcio Holland, que coordenou estudos recentes da FGV sobre o tema.
Holland reconhece que a discussão do tema tornou-se um "quebra-cabeças" em que os dois lados do debate encontram "evidência empíricas" favoráveis e contrárias às suas teses, ao mesmo tempo. Na FGV, Régis Bonelli, que nega a desindustrialização, apresenta dados que, embora mostrem recuperação recente, apontam perda do peso da indústria em relação ao passado.
Na mesma FGV, Nélson Marconi e Fernando Barbi, que apontam indícios de desindustrialização, mostram gráficos que, ao mesmo tempo, revelam aumento da participação, no Produto Interno Bruto (PIB), de manufaturas de alta e média tecnologia.
Programas oficiais amenizam crise do setor
VALOR ECONÔMICO - Citada pelo candidato oposicionista José Serra (PSDB) como um problema a ser enfrentado pelo sucessor de Luiz Inácio Lula da Silva, a desindustrialização é negada com veemência no governo, que garante ter tomado providências para garantir sustentação à indústria. "Houve um tranco na indústria com a crise em 2007 e 2008, mas ela já vem se recuperando", resume o presidente da associação Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Reginaldo Arcuri.
"A taxa de crescimento da indústria, na produção de bens intensivos em engenharia, cresceu 7,7% ao ano, segundo estudo da Cepal", comenta o diretor de Planejamento do BNDES, João Carlos Ferraz. "Há uma estabilidade nos bens de alto conteúdo tecnológico, não estamos nos movendo em direção a um regime de maquiadoras", afirma. "As commodities ganham muito peso na pauta de exportações porque são competitivas, e mais de 50% da perda da produção industrial se deve à retração dos mercados para nossas exportações de manufaturas", calcula.
Arcuri lembra que no primeiro quadrimestre o crescimento da produção industrial aumentou 18%. No primeiro trimestre, a indústria se expandiu 4,2% em relação ao trimestre anterior, a maior taxa de crescimento desde o terceiro trimestre de 2003. O aumento é de 14,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. "A valorização cambial é uma ameaça, mas não há evidências de desindustrialização", afirma.
No primeiro trimestre de 2010, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, medida dos investimentos em capacidade produtiva) cresceu 26% em relação ao mesmo período de 2009, voltando ao patamar anterior à crise, no terceiro trimestre de 2008, compara o presidente da ABDI. "O crescimento da produção industrial tem sido maior que outros setores, maior que o PIB."
O governo evitou o agravamento da crise com o lançamento do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), que financia com juros reduzidos a compra de máquinas para a indústria, desde junho de 2009, com prazo de extinção em dezembro deste ano. De janeiro a abril, o BNDES chegou a desembolsar US$ 15,6 bilhões para a compra de máquinas e equipamentos, nível recorde, pequena parte do qual destinado ao PSI.
"Se não fosse o PSI estaríamos chorando sangue", diz o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Luis Aubert Neto, que chama atenção, porém, para o caráter temporário da medida e para o nível ainda baixo da FBCF, 18% do PIB. Os integrantes do governo argumentam que são variados os indicadores favoráveis ao investimento, como a recente Sondagem de Inovação da ABDI, que apontou expectativa entre grandes indústrias de aumento do percentual das firmas que realizaram inovações tecnológicas, de 71,4% para 74,3% no segundo trimestre.
Os dados favoráveis não convencem o setor privado. "A desindustrialização não se dá da noite para o dia, ela reduz aos poucos a cadeia de suprimento no país", diz o diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), Fernando Pimentel. É crescente o déficit de comércio no setor têxtil, e deve chegar neste ano a US$ 3,5 bilhões na avaliação da Abit. "Isso representa a não geração de 130 mil empregos no país", argumenta Pimentel. Ele admite, porém, que o aumento nas importações do setor se deu paralelamente ao aumento de vendas e até exportações dos fabricantes nacionais. Neste ano, prevê, o setor deve investir R$ 1,5 bilhão, 50% acima de 2008, "quando a economia vinha aquecida". A produção física da indústria deve crescer 12%. "O mercado interno nos tirou da crise, mas muitos empresários discutem se não é melhor distribuir no Brasil produção trazida do exterior", comenta.
Siderúgica: Posco confirma ter interesse na CSP
Empresa quer ampliar atuação em mercados emergentes e estuda "seriamente" unir-se à Dongkuk na siderúrgica
DIÁRIO DO NORDESTE (SERGIO DE SOUZA) - Líder no mercado sul-coreano de aço e quarta maior siderúrgica do mundo, a Posco confirmou ontem o interesse em se agregar ao projeto da Companhia Siderúrgica de Pecém (CSP) como sócia do empreendimento. A empresa já havia sido procurada pela conterrânea Dongkuk Steel Mill Co., atual sócia da joint venture cearense, mas até então ainda não havia deixado clara a possibilidade de vir a se juntar à CSP.
O comunicado foi dado em Seul, capital do País, pelo vice-presidente financeiro e chefe de planejamento da Posco, Choi Jong-tae, durante anúncio dos resultados financeiros da companhia - que teve seu lucro quase triplicado no segundo trimestre do ano. Segundo ele, a Posco possui planos de continuar em expansão em mercados emergentes, como o Brasil, e ressaltou que estuda "seriamente" unir-se à Dongkuk em seu plano de construir uma siderúrgica por aqui. Contudo, ponderou, a companhia ainda não chegou a uma decisão.
A Posco teria sido procurada pela concorrente sul-coreana em março deste ano. Após isso, uma fonte da empresa afirmou ao site Trending Markets que, entretanto, não havia nenhum interesse imediato em investir no projeto cearense. Contudo, ao que parece, as negociações avançam para uma mudança neste posicionamento inicial. Em fevereiro deste ano, inclusive, o CEO (presidente) da Posco, Joon-Yang Chung, acompanhado de três vice-presidentes, conheceu o Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp), onde será implantada a CSP, em uma visita de cortesia ao governador Cid Gomes.
APROXIMAÇÃO: A aproximação da companhia com o projeto foi confirmada pelo diretor de Desenvolvimento Setorial da Agência de Desenvolvimento Econômico do Estado (Adece), Eduardo Diogo, segundo informou o Diário do Nordeste na edição do último dia 25. Na ocasião, ele afirmou: "É possível que a Posco entre, sim". "Se a Posco entrar, agregará bastante no aspecto de mais know-how, mais conhecimento de mercado", reforçara o diretor da Adece.
A Vale, que completa a joint venture com a Dongkuk na siderúrgica do Pecém, também já havia deixado claro que existe uma busca por um novo investidor para a CSP.
Quando do início das obras do empreendimento no Pecém, em dezembro último, o presidente da Vale, Roger Agnelli, informara que estava buscando parceria com o BNDES. Já no mês passado, quando inaugurava a Companhia Siderúrgica do Atlântico, no Rio de Janeiro, em parceria com a ThyssenKrupp, ele disse ao Diário do Nordeste que a busca continua, mas que ainda não existe nada confirmado. "Ainda estamos abertos ao BNDES e a outros possíveis sócios", declarara.
NOVO SÓCIO É ESSENCIAL : Hoje, a Vale é sócia majoritária da CSP, com 60% das ações, deixando a Dongkuk com os outros 40%. A entrada de um outro sócio é tida como requisito essencial para que a CSP possa ampliar a sua capacidade de produção, que será, no atual modelo, de três milhões de toneladas de placas de aço anuais. Uma segunda fase estava inicialmente prevista para dobrar essa produção, mas ela depende de novos investidores.
O Diário do Nordeste entrou em contato com a assessoria de imprensa da Companhia Siderúrgica de Pecém para obter uma resposta sobre as negociações, mas, até o fim da edição, não houve retorno.
COLUNA NEGÓCIOS (Egídio Serpa)
DIÁRIO DO NORDESTE - Terça-feira, 13, o Sindicato da Indústria Metalmecânica do Ceará abriu um ciclo de debates políticos. Para inaugura-lo, o convidado foi o candidato a governador Lúcio Alcântara, que expôs seus planos. Será que os demais candidatos também irão ao Simec? |