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Ano II – nº 150– Fortaleza/CE – edição: 14.06.2010

  

Siderurgia: Após cinco anos e um aumento de 80% no orçamento inicial, usina começa a operar esta semana

ThyssenKrupp inicia produção na CSA

VALOR ECONÔMICO - Depois de cinco anos de obras marcadas por inúmeros contratempos, inclusive a crise financeira internacional, entra em operação, na sexta-feira, a ThyssenKruppCSA - Companhia Siderúrgica do Atlântico, instalada na região metropolitana do Rio de Janeiro. O complexo siderúrgico recebeu € 5,2 bilhões (US$ 6,6 bilhões), o que representou aumento de quase 80% em relação ao orçamento inicial de € 3 bilhões. O investimento é o maior já feito pelo grupo alemão no mundo, em sociedade com a Vale.

Rodrigo Tostes, vice-presidente financeiro da CSA, informou que a primeira placa de aço deverá ser produzida entre julho e agosto. Nesta semana, está prevista a largada da primeira unidade produtiva, que é a de sinterização. O processo consiste na aglomeração do minério de ferro para posterior produção do ferro gusa nos dois altos fornos, com capacidade total de 5 milhões de toneladas de placas de aço por ano.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente executivo mundial do grupo ThyssenKruppEG, Ekkehard Schulz; e Roger Agnelli, presidente-executivo da Vale, estarão presentes à cerimônia de inauguração da usina.

O primeiro alto-forno deverá entrar em operação entre o fim do mês e o início de julho. Na primeira etapa está prevista a produção de 2,5 milhões de toneladas de placas. Em princípio, o segundo alto-forno deve começar a funcionar em janeiro de 2011 com idêntica capacidade. O cronograma da CSA, segundo Tostes, prevê que a capacidade plena de produção seja atingida no segundo semestre de 2011. "A melhor estratégia para o grupo é que o segundo alto-forno entre em atividade nesta data."

Ele reconheceu que a segunda fase de produção pode passar por ajuste fino considerando-se as condições de mercado e os preços das placas. Isso porque as placas produzidas pela CSA serão exportadas para usinas do grupo em Duisburg (Alemanha) e Alabama, (Estados Unidos), onde a ThyssenKrupp vai inaugurar em dezembro uma unidade de produtos laminados de aço. Os dois mercados, o europeu e o americano, estão ainda em crise. Quando a CSA estiver produzindo a todo vapor, o plano da ThyssenKrupp é alimentar a usina americana com 60% das placas produzidas no Rio e destinar o restante à fábrica alemã.

O diretor financeiro da CSA considerou normal os atrasos e dificuldades enfrentadas para implementar um projeto "green field" do porte do complexo siderúrgico carioca. Um dos principais motivos do atraso, segundo ele, foram as obras civis que envolveram o equivalente a 1,4 mil quilômetros de estaqueamento. Ao todo, o terreno ocupado pelo complexo siderúrgico tem nove milhões de metros quadrados. "Houve um aumento no número de estacas utilizadas e faltou equipamento."

Outro ponto que motivou mudanças no cronograma foi o aquecimento do mercado siderúrgico mundial no início do projeto, em 2005, o que encareceu serviços e equipamentos. Também pesou a sobrevalorização do real frente ao dólar, que aumentou os gastos em reais. "Os equipamentos mais sofisticados foram construídos fora do Brasil. Mas o conteúdo nacional do projeto, previsto inicialmente entre 40% e 50%, ficou entre 60% e 70%." Os números do executivo indicam que do investimento total, cerca de € 3 bilhões foram gastos no Brasil. "Só no Rio, os gastos ficaram entre R$ 5 a R$ 6 bilhões."

Apesar dos problemas, Tostes disse que o projeto mostrou ser viável economicamente. Um exemplo foi o fato de a Vale ter aumentado a participação societária no empreendimento de 10% para 26,87% no ano passado. Como resultado, a ThyssenKrupp reduziu sua fatia na parceria de 90% para 73,13%. Segundo o executivo, o investimento foi todo feito pelos sócios, com exceção dos empréstimos concedidos pelo BNDES. Segundo o banco, foi contratado R$ 1,4 bilhão para CSA, recursos ainda em fase de desembolso.

Analistas consultados avaliam que o custo da tonelada instalada de aço por total investido no projeto CSA está saindo por US$ 1.300, por conta da depreciação do euro. Se fosse fazer a conta com base numa média de US$ 1,40 por euro, cotação próxima da que estava antes da recente crise europeia, o valor do empreendimento em dólar seria na faixa de US$ 7,3 bilhões ou US$ 1.460 por Capex/tonelada. Este valor fica pouco acima dos US$ 1.400 por tonelada, hoje o custo efetivo por tonelada instalada num projeto de usina integrada.

O empreendimento, no bairro de Santa Cruz, zona oeste do Rio, funciona de forma integrada recebendo minério de ferro fornecido pela Vale e importando carvão em terminal portuário próprio, por onde também serão exportadas as placas de aço. Conta ainda com uma coqueria com três baterias, sendo que a primeira delas entra em operação dentro de 50 dias, e com uma termelétrica de ciclo combinado com capacidade de 420 megawatt

O novo plano da Ferrous

VALOR ECONÔMICO - Será de aços longos, especialmente tarugos (barras para laminação), e não mais de placas, a usina que a Ferrous Resources do Brasil projeta construir em Juiz de Fora (MG) em parceria com um grupo siderúrgico ainda em fase de escolha. O mercado visado pela subsidiária da Ferrous Internacional, empresa controlada por fundos de investimentos estrangeiros, também mudou: de placas destinada ao exterior para vergalhões e outros produtos destinados ao mercado interno, na esteira do crescimento da construção civil.

A produção de aços longos no Brasil em 2009 beirou a marca de 9 milhões de toneladas. Os grupos produtores são Gerdau , ArcelorMittal, Votorantim Siderurgia e Sinobras. A construção de uma siderúrgica na cidade de Juiz de Fora é parte do compromisso assinado em março pela Ferrous com o governo mineiro. O objetivo é viabilizar o seu projeto mais amplo de explorar cinco minas de ferro que possui no quadrilátero ferrífero mineiro. A empresa pretende exportar até 50 milhões de toneladas anuais por meio de um mineroduto que levará a produção das minas até um terminal a ser construído no município de Presidente Kennedy, no sul do Espírito Santo. Segundo o Valor apurou, a construção da usina é uma condicionante do governo mineiro para liberar a construção do mineroduto de 400 quilômetros.

Na sexta-feira, executivos da Ferrous estiveram em Juiz de Fora decidindo sobre a escolha do terreno para a siderúrgica e discutindo detalhes com a prefeitura. Segundo o prefeito Custódio Mattos (PSDB), os estudos feitos pela empresa mostraram que a opção por aços longos aumentará a rentabilidade do projeto.

Feitas as contas, a Ferrous até já admitiria ter uma fatia maior no projeto do que os 20% a 30% que pretendia ter inicialmente. Antes a empresa vinha negociando parceria apenas com empresas estrangeiras (da China, Índia e da Europa), mas com o novo perfil, a usina teria passado a interessar também a operadores nacionais. O projeto inicial da usina era para 3,5 milhões de toneladas/ano de placas, com investimento total de R$ 8,8 milhões. Na nova configuração, ela começaria produzindo um milhão de toneladas/ano de aços longos, sendo ampliada gradativamente. O projeto total da Ferrous, incluindo a exploração das minas e o mineroduto, é de R$ 18 bilhões para operação total até 2016.

A usina da Ferrous é vista como um possível coroamento da reversão do esvaziamento econômico que Juiz de Fora sofre há anos. A reversão começou em novembro, quando o governo mineiro decidiu reduzir o ICMS para novas empresas que se instalassem na região, igualando benefícios concedidos a cidades limítrofes do Rio de Janeiro.

Cobre: Saneada e enxuta, companhia pretende expandir e modernizar seu parque fabril até 2013

Paranapanema faz plano para investir R$ 500 milhões

VALOR ECONÔMICO - A Paranapanema, maior fabricante de cobre do país, parece que finalmente vai pôr fim à longa paralisia. Na semana passada, na Europa, fechou a compra de uma fábrica completa que vai substituir a instalação já quase obsoleta que opera há mais de cinco décadas em Santo André, no ABC paulista. É um passo emblemático da companhia, cujo controle foi assumido no começo de 1996 pelos fundos de pensão Previ, Petros, Sistel e Aerus, além da BNDESPar. Desde então, só consegue administrar uma pesada dívida, herdada no negócio, e um portfólio de ativos com mais de 60 empresas.

"Esse grupo não vê investimentos significativos há mais de dez anos e tem linhas de produção com mais de 50 anos ainda em operação", disse ao Valor Luiz Antônio Ferraz Júnior, presidente da empresa desde agosto de 2008. A aquisição na Europa é parte de um pacote de mais de R$ 500 milhões de investimento até 2013 na expansão e modernização de seu parque fabril. Hoje, enxuta, a companhia foca em cobre metálico e fertilizantes na Bahia e em produtos laminados, barras, tubos, ligas e conexões de cobre em Santo André e Serra (ES).

Até o fim de março, Ferraz, contratado em maio de 2005 como diretor financeiro, só cuidou de pôr empresa em ordem. "Havia, com os acionistas, concentrada na holding, uma dívida de R$ 1,5 bilhão que não permitia investir nas áreas operacionais". Um passo foi deixar de usar dinheiro da operação para quitar dívidas da holding. Isso significou capitalização de metade do passivo e venda de um ativo de peso, a mina de estanho, para quitar a outra metade. "Concluímos a venda da Taboca/Mamoré, por R$ 850 milhões, no meio da crise, em novembro de 2008".

Os passos seguintes, até março, foram a reorganização operacional, societária e de saneamento fiscal. Ao aderir ao Refis, do governo federal, eliminou contingências de quase R$ 1,6 bilhão. Iniciou a incorporação das duas principais empresas do grupo - Caraíba Metais e Eluma - pela holding Paranapanema, transformando-a numa empresa operacional. Com isso, busca ganhos operacionais, administrativos, comerciais, de logística e de investimentos.

O terceiro passo, concluído neste ano, foi a conversão de suas ações preferenciais em ordinárias, criando uma única classe de papéis. Assim, abriu caminho para migrar ao Novo Mercado da BM&FBovespa. O plano é fazer isso no segundo semestre.

Hoje, a Paranapanema é só uma sombra daquela que nos anos 80 agitou o mercado de capitais como a maior mineradora de estanho do mundo. Mas, ao menos, ostenta um plano para crescer. A situação financeira é confortável: encerrou o primeiro trimestre com dívida negativa em R$ 213 milhões (ver quadro nesta página). Talvez, agora, já possa pensar em remunerar os acionistas, depois de longos anos sem pagar dividendo.

O programa de investimentos visa, além de expansão, dotar suas fábricas com tecnologias modernas para ter custos mais competitivos e poder oferecer novos produtos. "Nosso objetivo é aumentar o peso do mercado interno na receita", informa Ferraz. Na empresa unificada, a meta é alcançar 75%, ante os 50% de 2009, aproveitando o crescimento do Brasil previsto para os próximos anos em vários setores que consomem cobre - bens eletroeletrônicos e eletrodomésticos, construção civil, máquinas e equipamentos e automotivo.

Ao fim dos investimentos, a empresa projeta um adicional de faturamento da ordem de US$ 650 milhões. Desse valor, mais da metade (US$ 350 milhões) virá da expansão da metalurgia de cobre situada em Dias D ' Ávila, na Bahia, a qual está orçada em R$ 300 milhões. Essa fábrica, que fabrica catodos e vergalhões, passará de 220 mil para 276 mil toneladas anuais. "Já temos o plano aprovado, com de 80% de financiamento do Banco do Nordeste". As obras, previstas para começarem em 90 dias, devem durar 24 meses.

A unidade de produtos laminados de Utinga, em Santo André, será reconstruída com as modernas instalações adquiridas na Europa. Vão desembarcar no Brasil em até 15 meses. O custo total do projeto é de R$ 150 milhões e ele deverá estar definido até o fim do ano. "Vai nos permitir ampliar a base de clientes", diz Ferraz, que vai avaliar, com sua equipe, se a nova fábrica será montada no lugar da atual, já obsoleta, ou se irá para um novo site, próximo a um porto. "Cada vez mais, aqui estamos cercados por condomínios residenciais". Essa alternativa vai considerar ganhos logísticos com transporte de matéria-prima da Bahia via cabotagem, como já faz hoje com produtos da Caraíba para venda no mercado do Centro-Sul.

Com a expansão, irá de 26 mil para uma capacidade de 66 mil toneladas/ano, gerando receita adicional de US$ 160 milhões a partir de 2012. Além de crescer, poderá fazer bobinas com peso de até 7 toneladas, mais que o dobro de hoje, e mais largas que as atuais.

O outro investimento, de R$ 50 milhões, na divisão Eluma está desenhado para elevar de 16 mil para 36 mil toneladas a capacidade atual da fábrica de tubos de cobre sem costura que fica em Capuava, outro bairro de Santo André. "Será a mais moderna unidade de tubos do mundo", diz o executivo, observando que a atual está com seus processos produtivos ultrapassados. "Vamos conseguir ganhos expressivos de custos e crescer nos mercados de refrigeração e construção civil".

"A partir de abril, essa companhia ganhou uma nova cara, pois está com situação financeira, fiscal e societária arrumada e com um plano aprovado de crescimento", afirma Ferraz.

Não tem mais bloco de controle nem acordo de acionistas. A pergunta é se Previ, BNDESPar e Petros vão apostar mais alguns anos na Paranapanema ou se vão aproveitar o momento para vender suas ações.

Mineradora ganhou projeção com a extração de estanho

VALOR ECONÔMICO - Nascida como empresa da construção pesada em 1961, a Paranapanema se fez mesmo conhecida como mineradora de estanho. Com esse negócio, ganhou projeção mundial. Hoje, é apenas uma fabricante importante de produtos de cobre metálico no cenário global. Muita coisa mudou na trajetória da companhia, que chegou a reunir um portfólio de dezenas de empresas dos mais diversos setores - de perfuração de petróleo até coleta de lixo.

Ícone da mineração brasileira nos anos 80, a Paranapanema entrou no ranking das líderes mundiais da produção de estanho e suas ações alcançaram o status de "blue chip" na Bolsa brasileira na época. Tendo por base a mina de Pitinga, no meio da Amazônia, tornou-se uma das três maiores mineradoras do país, rivalizando com a então estatal Vale do Rio Doce. Deu seus primeiros passos no setor quatro anos depois de fundada e listou seus papéis na Bolsa em 1971. No fim daquela década, verticalizou as operações no negócio de estanho, desde extração do minério (cassiterita) até a metalurgia. Foi em 1982 que alçou ao estrelato, ao incorporar a grande jazida de Pitinga, em Presidente Figueiredo, 350 km ao norte de Manaus.

A Paranapanema surgiu pelas mãos de um grupo de empreendedores sob a liderança do discreto empresário Octávio Lacombe. Segundo pessoas que o conheceram, ele se interessou por concessões de jazidas minerais na Amazônia após um de seus engenheiros ouvir de geólogos americanos que a região de Pitinga era rica em minérios. Ele obteve licença do governo militar para atuar numa área de 4.800 quilômetros quadrados. Ao ser instalada, explorando minério de aluvião no fundo de igarapés, de baixo custo de produção, Pitinga tornou-se a maior mina de estanho do mundo.

Com a morte de Lacombe em 1992, em um acidente de automóvel, a empresa que era tida como 'case' de sucesso, ficou sem comando. Ao mesmo tempo, os preços do estanho no mercado internacional despencaram, de até US$ 16 mil a tonelada no auge para cerca de US$ 3 mil. Em crise, no fim de 1995 a Paranapanema teve o controle transferido a um grupo de fundos de pensão liderados pela Previ.

Esse grupo, que incluía BNDES, Sistel e Petros, não escondia o sonho de criar a maior empresa de mineração e metais do Brasil, superando a Vale. Já havia comprado a Caraíba Metais (cobre), a Eluma (manufaturados de cobre) e a Paraibuna de Metais (zinco).

A união desse ativos, e de diversos outros, ficaram sob a holding Paranapanema, que herdou uma dívida enorme. A situação da "nova empresa" foi complicada desde o início, tanto na operação quanto na gestão. Diante da crise do setor que se prolongou até 2003, foi desfazendo-se de ativos e concentrou-se em mineração e metais. Isso não bastou: teve de vender a Paraibuna em 2002 (Votorantim) e a Taboca/Mamoré (área de estanho) em novembro de 2008 ao peruano Minsur.


 

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