Ano II – nº 146– Fortaleza/CE – edição: 02.06.2010 |
Vale enfrenta reação a reajuste de preço do 3º trimestre
VALOR ECONÔMICO - A Vale pode ter dificuldade para emplacar alta de 35% no preço do minério já comunicada aos seus clientes da siderurgia, a vigorar no terceiro trimestre, avaliam fontes da mineração e do aço. O cenário de desaquecimento da economia, inclusive da China, pode levar a mineradora a aceitar negociar novos descontos com os consumidores para evitar que eles optem por compras no mercado à vista, caso os valores do mercado livre caiam abaixo do preço de referência FOB do minério da Vale para o terceiro trimestre, de US$ 146 a tonelada. Isso já aconteceu. O preço do 'spot' chinês bateu ontem em US$ 144 a tonelada, incluindo o frete.
Esse valor, aplicada a fórmula de cálculo - valor FOB de US$ 15 por 3% de teor de ferro a mais, menos frete de US$ 33,8 - resultaria num preço FOB na faixa de US$ 123 a US$ 125 a tonelada, ou seja, bem mais barato que o referência FOB -Vale para o período julho a setembro. Esta diferença é certamente o que deve estar levando as usinas chinesas a querer mais uma vez rasgar contratos com a Vale, como fizeram ano passado, quando o 'spot' ficou inferior ao de contrato. Para um especialista em mineração, a intenção da Vale de adotar essa fórmula parece não ser tão bem sucedida quanto ela previa.
O diretor-executivo de ferrosos da Vale, José Carlos Martins, admitiu que o descumprimento de contratos de compra de minério pelas usinas chinesas "é uma possibilidade". Ele espera, porém, que as usinas chinesas "não façam isso porque temos contratos, temos um compromisso de longo prazo e um compromisso de longo prazo tem que valer para ambos os lados". Martins falou durante conferência em Xangai, ontem.
Também ontem, a mineradora emitiu comunicado esclarecendo sobre precificação do terceiro trimestre de 2010. Na nota, destaca que "o novo sistema de preços suaviza a volatilidade diária natural dos preços spot, pois estabelece um preço trimestral baseado na média de três meses dos preços de índices para o período, terminando um mês antes do novo trimestre em questão". "Os clientes podem escolher o índice ou a composição de índices que preferem usar. A Vale está aberta a negociar o que for melhor para o cliente", explica Martins na nota. Para ele, "os preços do minério estão seguindo a demanda e oferta do mercado".
A Vale não está fixando preços. Quem está fixando preços é o mercado e nós só estamos refletindo nos contratos o que está acontecendo hoje no mercado, disse Roger Agnelli, presidente da Vale.
Na avaliação de analistas de bancos, a mineradora sinaliza intenção de aproximar cada vez mais o reajuste de seu produto da sistemática de preços dos metais e agrícolas cotados diariamente em bolsas de mercadorias. Se isso ocorresse, a Vale evitaria rodadas intermináveis de negociações com seus clientes para dar-lhes descontos, como aconteceu no segundo trimestre, avaliam os analistas. Um especialista de mineração que não quis ser citado acredita que a mineradora poderá acabar no futuro optando simplesmente por vender minério no 'spot', que acompanha o dia a dia do mercado. "A Vale pode migrar para o spot", prevê.
Até mesmo uma oferta menor de minério, que influi no mercado, está sendo posta à prova neste trimestre. O aumento de produção de aço que está gerando um excedente e derrubando os preços do aço no mundo também pode gerar pressão das usinas sobre a Vale por preços menores. Tal cenário está contribuindo para a trajetória de queda do 'spot' chinês, que saiu de US$ 188 em março/abril para a casa de US$ 140 em maio e permanece neste nível, em junho.
Para Carlos Loureiro, presidente do Inda, entidade dos distribuidores de aço, a siderurgia mundial vive um momento de queda de preços, reforçada pela crise europeia. "As usinas brasileiras devem ter cautela, pois se forem aumentar preço em 10% em julho, como planejam, podem correr o risco de deflagrar uma nova onda de importações do produto. Nesse ambiente, acho difícil conseguirem repassar a alta de 35% do minério".
Financiamento do BNDES para compra de máquinas bate recorde no quadrimestre
VALOR ECONÔMICO - As estatísticas de desempenho do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) referentes ao mês de abril, reforçam os dados da produção industrial do IBGE quanto ao forte incremento do setor de bens de capital. Segundo o banco estatal, os desembolsos das linhas da Finame, destinadas a financiar a compra de máquinas e equipamentos, bateram o recorde histórico de janeiro a abril, somando R$ 15,6 bilhões, com aumento de 133% sobre os R$ 6,7 bilhões do mesmo período do ano passado.
Para Gabriel Visconti, chefe do Departamento de Orçamento do BNDES, os números da Finame mostram que as indústrias estão investindo no aumento da capacidade produtiva e na modernização, de modo a assegurar a continuidade da expansão econômica sem medo do fantasma da inflação. Esses investimentos, segundo Visconti, estão sendo favorecidos pelo Programa de Sustentação do Investimento (PSI), criado pelo governo para combater a recessão do final de 2008 e início de 2009 trazida pela crise internacional.
O PSI empresta dinheiro do BNDES a juros de 4,5% para a compra de bens de capital propriamente e a 7% para a variante caminhões e ônibus (exceto o programa Pró-Caminhoneiro, que também tem taxa de 4,5%). O programa, que terminaria no meio do ano, foi estendido até dezembro, mas a partir de 1º de agosto as taxas sobem para, respectivamente, 5,5% e 8% (o Pró-Caminhoneiro permanece em 4,5%).
De janeiro a abril os empréstimos para bens de capital envolveram 67,5 mil operações, o que dá uma média de mil operações por dia útil, quase o triplo da média histórica diária, que é de 340 operações. As estatísticas mostram que a Finame sozinha respondeu por 44% dos desembolsos totais do banco no período, que somaram R$ 35,7 bilhões, 34% a mais do que no mesmo período de 2009. Nos 12 meses encerrados em abril o BNDES emprestou R$ 146,4 bilhões, com crescimento de 58%.
"Em 2010, a taxa de investimentos do Brasil seguirá crescendo", disse Visconti, enfatizando que as condições favorecidas do PSI e os esforços para melhoria da infraestrutura -o BNDES emprestou R$ 14,1 bilhão para infraestrutura de janeiro a abril, com expansão de 41,3% sobre o primeiro quadrimestre de 2009 - apontam para forte modernização.
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