Ano II – nº 145– Fortaleza/CE – edição: 01.06.2010 |
Excessos de produção criam pressões sobre preço do aço
VALOR ECONÔMICO - A indústria siderúrgica mundial está aumentando tão rápido a produção que os preços em alguns mercados devem cair 5% ou mais em junho, e os estoques estão crescendo.
Na China, o país mais importante na formação dos preços globais do aço, e no Leste Europeu, as fábricas estão produzindo volumes recordes do produto.
A disparada na oferta acontece em meio a sinais de que o ritmo de retomada das economias pode não ser vigoroso, despertando o receio de que a oferta vá superar a demanda e segurar os preços quando eles estavam apenas começando a subir.
"A possibilidade de um excesso de produção no mercado é uma preocupação", disse Lakshmi Mittal, presidente da europeia ArcelorMittal, a maior siderúrgica do mundo.
Com base num recorde alcançado em abril, a produção anualizada de aço no mundo todo deve subir para 1,5 bilhão de toneladas este ano, ante cerca de 1,25 bilhão de toneladas em 2009. Conforme as previsões da Associação Mundial do Aço para 2010, a oferta vai superar o consumo, estimado em 1,3 bilhão de toneladas.
A produção chinesa aumentou cerca de 20% em abril, em relação a igual mês do ano anterior, enquanto os crescimentos foram de 13% no Oriente Médio e 4,1% na Coreia do Sul. As siderúrgicas europeias elevaram a produção em 2,5%, apesar de a economia do continente ter desacelerado. Somente os Estados Unidos e o Japão reduziram a produção, em 1% e menos de 0,5%, respectivamente.
A ArcelorMittal está avaliando suas fábricas e eliminando as operações menos eficientes.A empresa está fechando dois alto-fornos em Indiana, nos Estados Unidos, e reativando um maior no mesmo Estado, numa tentativa de centralizar a produção e cortar custos, segundo o porta-voz William Steers. O alto-forno que a empresa está colocando em operação tem uma capacidade anual cerca de 500 milhões de toneladas, superior à capacidade combinada dos dois que serão desativados.
Apesar da preocupação de seu presidente, a ArcelorMittal já informou que planeja expandir para 80% a utilização da capacidade instalada este ano. Em 2009, ela ficou em 72%. Mas a empresa vai acompanhar os mercados locais, para equilibrar a oferta à demanda.
Com a grande ampliação da capacidade, o excesso de aço, particularmente da China, está começando a afetar os mercados exportadores. Conforme estatísticas comerciais da China, as exportações de aço acabado chinês triplicaram em abril, em relação a um ano antes.
"Os chineses normalmente exportam esses excessos de produção quando os preços no mercado doméstico começam a ceder, e nós vimos que essa tendência se acentuou nos últimos meses", disse Michelle Applebaum, analista de siderurgia da MAR Inc., uma firma de análise de ações do setor. Segundo ela, a produção diária na China subiu para um recorde de 1,85 milhão de toneladas em abril, o que representa um aumento de 4,2% em relação a março e de perto de 20% na comparação com abril de 2009. Ao mesmo tempo, os preços estão em queda na China.
Diante da perspectiva de que esse aumento da produção chegue ao mercado, alguns compradores de aço estão segurando encomendas na expectativa de que os preços caiam.
"É melhor esperar", diz Dmitry Osipov, um operador independente que trabalha para a IMH, empresa russa que compra aço para minas e fábricas na Ásia e no Leste Europeu. "Acho que vai haver novas quedas de preços." Ele prevê uma redução adicional de 10%.
A Meps International Ltd, empresa britânica que acompanha os preços globais do aço, disse que mundialmente os valores chegaram ao pico em maio e que agora devem encolher. Mas a empresa não estimou em quanto.
No momento, a baixa de preços está ocorrendo principalmente na China. O preço do laminado a quente, um componente básico para a maioria dos produtos feitos de aço, caiu 3,6% na China em maio, enquanto os preços do vergalhão, usado para reforçar concreto, baixaram 2,1%.
Os valores de mercado do aço se mantiveram relativamente sólidos na Europa, apesar da vacilante economia do continente, e também nos EUA, em parte porque usinas que tinham sido paralisadas ainda não foram religadas. As cotas de importação e os altos custos de transporte internacional do aço também limitaram o volume de exportação de certos tipos de aços para o mercado americano. Além disso, a demanda do setor automotivo do país está relativamente forte.
Os preços começaram a subir no quarto trimestre de 2009. Depois de um ano e meio de demanda fraca e preços em queda, os consumidores passaram a comprar mais carros e os programas de estímulo do governo incentivaram a construção de mais pontes e edifícios.
Mas o ritmo dos reajustes está se desacelerando e, em alguns casos, já chegou ao limite. Os preços do vergalhão de aço nos EUA, que vinham aumentando todos os meses desde novembro, agora se estabilizaram.
Para analistas, preço do minério de ferro deve elevar projeções de inflação
VALOR ECONÔMICO - O mercado parou de elevar a expectativa de inflação, mas, segundo apurou o Valor, não estacionou - apenas fez um pit-stop. A alta, próxima a 35%, nos preços do minério de ferro negociados pela Vale a partir do mês que vem deve atingir os índices que registram as oscilações no atacado e, com efeito dominó, diferentes cadeias produtivas, que aproveitam o ferro e o aço. A percepção entre os economistas e analistas do setor de aço é que o mercado deve voltar a elevar as expectativas de inflação em 2010, depois de, por meio do boletim Focus, ter cessado o pessimismo que o contagiou por 18 semanas consecutivas. No entanto, para os analistas, a alta - na inflação e nas expectativas - deve se dissipar a partir do último trimestre.
No fim de março, a Vale anunciou aumento de até 114% nos preços do minério de ferro, numa alta média de 90% frente aos valores negociados em 2009. O Índice de Preços no Atacado (IPA), calculado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), saltou, na passagem de abril para maio, de 0,72% para 1,49%, influenciado pela forte alta do minério de ferro, que passou de deflação de 1,06% em abril para 49,8% em maio, numa elevação superior a 50% em apenas 30 dias. A economista Tatiana Pinheiro, do Santander, calcula que a alta do ferro representou 69,2% de todo o aumento de preços registrado pelo IPA-industrial no mês passado.
O efeito dominó, que parte do minério de ferro e chega no bem de consumo final, como o automóvel e o eletrodoméstico, que utilizam o aço em sua produção, não é linear. Carlos Loureiro, presidente do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda), acha difícil as usinas de aço repassarem o preço do minério para seus clientes numa periodicidade trimestral, como querem as mineradoras, já que o ritmo de produção mundial das siderúrgicas está acima do consumo real. Segundo seus cálculos, as siderúrgicas produziram em abril 121,6 milhões de toneladas em todo mundo, que anualizadas indicam um ritmo de produção de 1,48 bilhão de toneladas de aço para 2010, quase 11% acima de 2008 e 2007, ano pico da produção mundial de aço.
A onda de alta que tomou conta dos preços do minério e do aço e vem contaminando a inflação está agora num vale de baixa. No caso do minério, o preço spot chinês, que baliza a fórmula de alta trimestral do produto, baixou de um patamar de US$ 180 para US$ 140, o que vai influir no preço a ser fixado para o último trimestre do ano. "No terceiro trimestre, o minério deve subir em torno de 30%, saltando de US$ 110 para uns US$ 140 a US$ 145, mas prevejo que deve recuar no último trimestre do ano." O preço médio do spot no período julho, agosto e setembro vai ser mais baixo. "Devemos ter no último trimestre uma queda no preço do ferro", avalia.
"As vendas de automóveis devem ter caído entre 10% a 15% em maio sobre abril", estima Fábio Ramos, analista da Quest Investimentos, para quem uma desaceleração do consumo de bens intensivos em aço, devido ao fim de incentivos fiscais concedidos pelo governo, deve exercer uma pressão de baixa sobre os preços. "Além disso", diz Ramos, "há sempre espaço para ampliar importação, caso o consumidor não aceite o produto nacional mais caro."
Como avaliam os economistas ouvidos pelo Valor, a alta no minério de ferro deve voltar a elevar as expectativas de IPCA. Até agora, avalia Tatiana, a deterioração das expectativas ocorria graças a elevação nas estimativas de crescimento econômico, puxado pela alta na demanda das famílias, que pressionaria preços. "O mercado vai voltar a elevar as expectativas de inflação para o fim de ano, agora levando em consideração essa alta considerável nos preços do minério de ferro", diz a economista.
Eletrodomésticos: Vendas de linha branca desaceleram, mas indústria ainda projeta expansão
VALOR ECONÔMICO - Quatro meses depois do fim do incentivo envolvendo o Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) de fogões, geladeiras, máquinas de lavar e tanquinhos, a indústria está confiante que vai fechar o ano com desempenho em alta. A GfK, que presta consultoria no setor e acompanha o varejo, trabalha com estimativas de vendas entre 5% e 10% maiores para este ano. Mas as varejistas sentem na pele a pouca disposição do consumidor em voltar a desembolsar mais pelos itens de linha branca.
Enquanto Whirlpool e Electrolux, os dois maiores fabricantes de eletrodomésticos do país, projetam aumento de pelo menos 8% nas vendas do ano sobre o excelente ano de 2009 (quando o incentivo fiscal contribuiu para a alta de 30% no volume vendido), grandes e médios varejistas como Máquina de Vendas (Ricardo Eletro e Insinuante), Magazine Luiza e Baú Crediário registram desacelaração nas lojas.
"Nossas vendas de linha branca caíram 15% depois do fim da redução do IPI", afirma Ricardo Nunes, presidente da Máquina de Vendas. "O que tem saído mais é TV de LCD", diz, destacando a preferência do consumidor no período pré-Copa do Mundo. Já na rede Baú Crediário, com 130 pontos de venda, o faturamento foi 8% menor em maio, mês estratégico para os eletrodomésticos, por conta do Dia das Mães. "Há demanda, mas vendemos menos para não sacrificar a margem de lucro", diz Décio Pedro Thomé, diretor do Grupo Silvio Santos, que controla a rede.
Segundo Thomé, com a redução do IPI - que vigorou de abril de 2009 a 31 de janeiro deste ano -, o consumidor se acostumou a ver eletrodomésticos em um patamar mais baixo de preços. "Quem encontrava uma lavadora de 10 quilos a R$ 999 acha caro o produto a R$ 1.199 agora", diz. "É preciso que varejo e indústria se esforcem para diminuir as margens de ambos os lados e garantir vendas maiores".
Já o Magazine Luiza afirma que as vendas de março foram 29% superiores às do mesmo mês do ano passado, quando não havia o incentivo. Já em abril a demanda por linha branca subiu só 2% sobre abril de 2009. Até ontem, a varejista acreditava que maio poderia encerrar com queda.
"Nossa meta é vender entre 5% e 8% mais este ano", diz Armando do Valle Jr., diretor da Whirlpool, a maior fabricante de linha branca do país, dona de Brastemp e Consul. Em março, no entanto, o presidente da companhia no país, José Drummond Jr., em entrevista ao Valor, havia informado uma expectativa até 15% maior para 2010. Valle Jr. afirma que não houve revisão de metas, mas alinhamento da produção para se adequar à nova realidade: se no primeiro trimestre as vendas cresceram 25%, agora a produção está sendo adaptada para um volume menor, mas ainda crescente. "A demanda é maior por lavadoras e micro-ondas, produtos de baixa presença nos lares", afirma. A empresa trabalha com três turnos nas fábricas de Rio Claro (SP) e Manaus (AM) e em quatro turnos em Joinville (SC), e não pretende dar férias coletivas.
Essa alternativa deve ser usada pela Electrolux em julho, por dez dias, na fábrica de refrigeradores em Curitiba (PR). Segundo a empresa, trata-se de uma medida de praxe, para manutenção da planta, que deve fazer 580 novas contratações este mês. Já a Mabe decidiu parar por 20 dias a fábrica de fogões de Campinas (SP) e estuda fazer o mesmo em Hortolândia (SP), por conta na queda nas vendas. |