Notícia

 

Ano II – nº 130 – Fortaleza/CE – edição: 29.04.2010

 

O impacto da alta do minério na inflação
VALOR ECONÔMICO (RAQUEL BALARIN – Diretora de conteúdo digital) - Desde que a Vale, uma das maiores exportadoras mundiais de minério de ferro, anunciou que mudaria sua sistemática de negociação de preços, o que pode gerar impactos no preço da matéria-prima na casa dos 100% para o trimestre abril/junho, pipocaram notícias sobre o impacto do reajuste na inflação. O termômetro esquentou há cerca de uma semana, quando o coordenador de Análises Econômicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Salomão Quadros, deu uma entrevista em que dizia que "a influência do reajuste (do minério de ferro) será muito forte no cálculo da inflação atacadista". A FGV calcula o Índice de Preços por Atacado (IPA), hoje chamado de Índice de Preços aos Produtores (IPP).
Antes de mais nada, é bom lembrar que não é o IPA/IPP que baliza as decisões de política monetária do governo. O sistema de metas de inflação brasileiro utiliza como parâmetro o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo IBGE. E a Vale fez as contas de qual seria o impacto da alta do minério em bens de consumo final, como veículos e linha branca, que utilizam aço (o minério de ferro é o produto do início da cadeia produtiva do aço). No fim da linha, são produtos como esses que entram no cálculo da "inflação do varejo". Hipoteticamente, um reajuste de 100% no preço do minério teria um impacto de cerca de R$ 150 no preço final de um carro com valor de venda de R$ 30 mil - ou seja, de 0,5%. No caso da geladeira, o reajuste seria de R$ 10 para um produto vendido entre R$ 1 mil e R$ 3 mil (entre 1% e 0,33%), de acordo com cálculos da mineradora.
"Há uma impropriedade no discurso sobre a inflação", diz Fábio Barbosa, ex-secretário do Tesouro Nacional e atual diretor executivo de finanças e relações com investidores da Vale. "O conceito de inflação remete à alta generalizada e persistente de preços. Temos um estudo da própria FGV que mostra que o impacto (da alta do minério) é irrelevante na inflação (ao consumidor) e depende do comportamento dos outros preços." Para a Vale, o discurso não faz sentido porque no ano passado, quando os preços do minério caíram de 28% a 33% e os das pelotas de ferro, 50%, não houve uma "puxada" para baixo nos índices de inflação ao consumidor.
Para o economista de um banco estrangeiro que preferiu não se identificar, o reajuste do minério, sozinho, realmente não geraria um forte impacto na inflação ao consumidor. "Mas ele ocorre num momento em que se verifica um forte aquecimento do consumo e, portanto, é um item a mais a contribuir para a alta de preços", diz, ressaltando que, de fato, não se pode culpar um único item por provocar inflação, como foi erroneamente no passado com o chuchu.
No caso da inflação ao produtor, a avaliação da Vale é de que o índice vinha apresentando deflação e que a alta do preço pode ser diluída ao longo da cadeia produtiva. Mas a companhia também vem chamando a atenção para uma diferença de metodologias entre dois países produtores de minério de ferro: o Brasil e a Austrália. O Brasil produz cerca de 350 milhões de toneladas de minério ao ano, consome ao redor de 45 milhões e exporta os outros 87%. No caso da Austrália, a produção está no mesmo patamar de 350 milhões de toneladas/ano, o consumo é de 6 milhões a 7 milhões/ano e a exportação chega a 97%. E, apesar do peso do minério de ferro no PIB e no consumo per capita de aço na Austrália ser maior, o peso da matéria-prima no índice de inflação ao produtor é maior no Brasil. No novo IPP brasileiro, o peso do minério passou neste mês de 1,06% para 2,59%. Na Austrália, segundo dados levantados pela Vale, é de 1,5%. "Lá, expurga-se a parcela de minério que é exportada. Só entra na ponderação do índice o que é consumido", explica o diretor executivo de minerais ferrosos da Vale, José Carlos Martins. Segundo ele, outra diferença é que na Austrália o cálculo considera o estágio de produção e o fluxo de mercadoria, quanto na metodologia brasileira há espaço para dupla contagem porque o reajuste á acumulado ao longo da cadeia produtiva.
Toda essa preocupação da Vale deve-se ao fato de que um reajuste que tem impactos positivos importantes na economia brasileira - especialmente nas contas externas - pode acabar sendo ofuscado por conta da discussão sobre o impacto na inflação. A mineradora foi responsável no ano passado por 9% das exportações brasileiras e, segundo cálculos de Bráulio Borges, da LCA Consultores, com o reajuste do minério, a estimativa do superávit da balança comercial de bens para este ano passou de US$ 12,1 bilhões para US$ 19,1 bilhões. O crescimento é relevante, de quase 58%.
Há ainda a influência do superávit comercial na taxa de câmbio. Enquanto a alta do minério pressionar preços na cadeia produtiva do aço, pelo lado do câmbio o reajuste da matéria-prima pode acabar até ajudando no controle da inflação. Um maior saldo da balança contribui na redução do déficit externo e ajuda a manter um real forte em relação ao dólar. O real valorizado permite a importação de bens comercializáveis (os chamados "tradeables"), contribuindo para a manutenção dos preços internos. E, aqui, uma ressalva: esse raciocínio não leva em conta se o real está muito valorizado ou não ou qual seria o ponto de equilíbrio.
A valorização do real frente ao dólar tem, inclusive, impactos na formação de preços internos do minério de ferro e do aço. Geralmente, os preços desses contratos têm como parâmetro o preço FOB (Free on Board) em moeda estrangeira. Se uma tonelada de minério custar US$ 100, por exemplo, e a cotação do dólar for de R$ 1,90, o preço final no Brasil será de R$ 190. Se o preço subir para US$ 110 (10%), mas a cotação cair para R$ 1,77, o valor final no mercado interno será de R$ 194,70. A alta, em reais, será de 2,47%.

Por tudo isso, o reajuste do minério de ferro e a nova sistemática de preços adotada pela Vale deve ser analisada de forma completa, em todas as suas facetas. E a mineradora não deve ser usada como bode expiatório num momento de alta generalizada dos preços.

 


 

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