Ano II – nº 122 – Fortaleza/CE – edição: 13.04.2010 |
Siderurgia: Depois de conflitos internos, Castello Branco deixa siderúrgica
Usiminas tira o presidente e indica Wilson Brumer
VALOR ECONÔMICO - Não durou nem dois anos o estilo trator adotado por Marco Antônio Castello Branco na presidência da Usiminas. Escolhido no início de 2008 para substituir Rinaldo Campos Soares, que estava há 17 anos no cargo, o executivo imprimiu um choque de gestão na siderúrgica mineira além do que podia suportar sua estrutura arraigada pelo longo período de modelo estatal, mesmo privatizada desde 1991. Na manhã de ontem, Castello Branco foi decapitado do do cargo, depois de tentar por várias semanas reverter seu processo de desgaste à frente da empresa.
No lugar de Castello Branco assumirá, a partir do dia 30, Wilson Brumer, que presidia o conselho da empresa desde abril de 2008. Brumer conta com a confiança dos acionistas japoneses - liderados pela Nippon Steel - e de Votorantim e Camargo Corrêa. Ele tem larga experiência no setor, como ex-diretor financeiro e ex-presidente da Vale até meados dos anos 90, ex-presidente da Acesita e da Siderúrgica de Tubarão (CST), além de ter comandado a subsidiária da BHP Billiton.
"Vamos iniciar uma nova fase de gestão na companhia", afirmou Brumer, cuja missão era ficar mais um ano à frente do conselho por convite dos japoneses. Seu lema: "trazer paz, harmonia, mais diálogo, dentro de um estilo mais motivação e unidade para a companhia". Segundo ele, o objetivo é criar mais valor para a empresa, maior fabricante de aços planos e terceira do setor no país.
Na visão do novo presidente da Usiminas, Castello Branco cumpriu seu papel, mas admite que o "choque de gestão" adotado por ele, de 220 volts, foi muito forte. "Ele fez um bom trabalho, mas seu estilo mais agressivo foi um tanto demais para uma empresa que ficou muitos anos sob uma mesma gestão". Agora, afirma, "vamos dialogar mais e criar mais valor para a companhia e aproximá-la mais do mercado de capitais e dos seus clientes".
Para presidir o conselho, no lugar de Brumer, representando a Nippon Steel, foi escolhido Israel Vainboim, que teve passagens pelo Grupo Moreira Salles e foi presidente do Unibanco de 1988 a 1992 e também da Unibanco Holdings, entre 1994 e 2007. Entre 1993 a 1996 presidiu também a CST. Atualmente é membro dos conselhos do Itaú Unibanco Múltiplo e de outras empresas, como Embraer e Iochpe-Maxion.
"O Israel foi recrutado pela Nippon Steel, pois inicialmente ele ficaria um ano como membro do conselho, tomaria pé da empresa, e depois iria assumir a presidência", informou Brumer. Mas o clima de insatisfação na empresa com a possível continuidade de Castello Branco, cujo mandato venceria no fim do mês, apressou a decisão pelas mudanças, após meses em conflito com empregados por conta de demissões e outras acusações contra decisões tomadas na sua gestão e por sua diretora de Recursos Humanos.
O principal flanco de resistência a sua continuidade vinha do CEU (Caixa dos Empregados da Usiminas), dona de 10% do capital votante e de 15,8% dos direitos de voto no conselho. Na semana passada, houve tentativa de mudanças na presidência da CEU para reverter a decisão - inclusive com voto registrado em cartório - de vetar permanência de Castelo Branco.
O desfecho, segundo uma fonte, se deu no fim de semana, com um acordo fechado entre os acionistas, inclusive a CEU. Definiu-se a saída do executivo, a indicação de Brumer e a não recondução de Rinaldo Soares - apontado como fomentador do processo de destituição de Castello Branco - e Bertoldo Machado, como representantes da Caixa no conselho. Para o lugar de Soares foi Romel Erwin de Souza, novo presidente do CEU.
O maior problema de Castello Branco parece ter sido a contratação de um consultor para treinamento de executivos. Isso acabou em uma investigação de assédio moral e sexual pelo Ministério Público do Trabalho de Minas.
Ontem, Brumer garantiu que nada muda no plano estratégico da siderúrgica, que inclui investimentos de R$ 3,2 bilhões este ano, além da meta de abrir o capital do negócio de minério de ferro e logística. "Nenhum dos planos previamente anunciados foi alterado", afirmou. Em agosto, o conselho irá apreciar a retomada do plano de construção de nova usina.
Autopeças: Na mesma semana, presidentes das americanas Eaton e Dana estiveram no Brasil para visitar clientes
Brasil ganha espaço na estratégia das múltis
VALOR ECONÔMICO - Na semana passada, estiveram no Brasil dois presidentes mundiais de grandes fabricantes de autopeças, com objetivos semelhantes: ver com os próprios olhos o desempenho dos negócios por aqui e estreitar relações com clientes no mercado que conquistou papel de protagonista na estratégia global das empresas do setor. A visita cada vez mais frequente desses executivos, contudo, não necessariamente se traduz em anúncios de mais investimentos. Câmbio desfavorável às exportações e mão de obra considerada cara, entre outros fatores que pesam no chamado "custo Brasil", são apontados pelas empresas como obstáculos a aportes mais robustos. Pesa ainda o fato de haver excedente de produção no mercado internacional, que pode ser direcionado para o país.
"Assim como já ocorreu em outras regiões, o Brasil também terá de se tornar mais competitivo", afirmou o presidente da Eaton, Alexander Cutler. "O câmbio traz pressão sobre as exportações, mas o mercado interno aquecido funciona por enquanto como proteção", acrescentou. O executivo, que retornou aos Estados Unidos na sexta-feira, não esconde o otimismo com a operação brasileira. "A razão da visita é o potencial de crescimento. Estamos animados", disse. A aposta, contudo, não deve se refletir na ampliação do parque fabril nacional, constituído por sete fábricas, ao menos no curto prazo. "Temos flexibilidade para investir em expansão se for necessário. Mas não vamos construir uma nova fábrica", avisou.
Segundo Cutler, assim como se vê nas montadoras, algumas linhas estão operando perto ou no limite de capacidade. Nesses casos, a americana poderá investir para melhora de produtividade e eficiência, com o objetivo de acompanhar a expansão projetada para a indústria automobilística brasileira - no ano passado, foram produzidos 3,19 milhões de veículos no país e já há quem trabalhe com estimativa de vendas de 3,5 milhões neste ano.
Hoje, praticamente tudo o que a Eaton produz aqui é vendido no mercado interno e não há perspectiva de retomada dos embarques, conforme Cutler. "Quase não há exportação e vemos que a importação de peças cresce rapidamente", comentou. "Ainda assim, o Brasil vai muito bem e vemos boas oportunidades por aqui nos próximos cinco anos".
Mundialmente, avaliou, a retomada das vendas de autopeças será mais lenta do que a reação nos países emergentes. "Mas o pior ficou para trás". Depois do setor financeiro, a indústria automobilística foi a mais afetada pela crise econômica. No ano passado, o faturamento global da Eaton recuou 23%, para US$ 11,9 bilhões. Para este ano, projeta crescimento entre 11% e 12%, sustentado pela recuperação da economia mundial e aposta em produtos que permitam maior economia de combustíveis e menor volume de emissões. Além de Cutler, esteve no país na semana passada o presidente mundial da Dana, James Sweetnam. Ex-executivo da Eaton, Sweetnam também destacou o novo papel do Brasil para os negócios globais da empresa, bem como os desafios que terão de ser enfrentados pelo país para manter-se atrativo aos olhos das multinacionais.
Déficit pode superar US$ 3,6 bi no ano
VALOR ECONÔMICO - Embora o Brasil seja considerado um dos principais mercados para a indústria mundial de autopeças na atualidade, a demanda doméstica por componentes deve ser cada vez mais atendida pelos importados. Em fórum realizado ontem em São Paulo, Paulo Butori, presidente do Sindipeças, entidade que representa os fabricantes no país, afirmou que a projeção inicial para o déficit do setor no ano, de US$ 3,6 bilhões, deverá ser superada. Historicamente superavitária, a indústria registra saldos negativos crescentes desde 2007 e, no ano passado, atingiu o recorde de US$ 2,5 bilhões.
"Haverá uma enxurrada de importações, principalmente na área de metalurgia, no segundo semestre", afirmou Butori, acrescentando que o reajuste dos preços do aço também deverá estimular esse movimento. Desde 1º de abril, explicou, o preço da matéria-prima subiu 12% na rede distribuidora, na esteira do novo sistema de preços do minério de ferro. Para as empresas que compram diretamente das siderúrgicas, o prazo limite para negociação seria hoje. "Não conseguiremos repassar integralmente o aumento para o preço final", afirmou, durante participação no evento produzido pela Automotive Business.
De acordo com Butori, câmbio e alíquota de importação que facilitam a entrada de produtos originados em outros países também têm papel relevante para o crescente déficit do setor. "Há ainda excesso de capacidade lá fora", enumerou. "Já há casos de empresas que deixam de produzir um ou outro componente aqui e passam a importar." Para 2011, o Sindipeças calcula déficit de US$ 4 bilhões.
Entre representantes do setor, é consenso a avaliação de que o crescimento das importações de peças nos últimos anos já desencadeou processo de desindustrialização. Em 2008, o melhor ano da história para a indústria automobilística nacional, os investimentos executados por fabricantes de componentes alcançaram US$ 1,5 bilhão. No ano passado, caíram a US$ 900 milhões, em resposta à crise econômica, e devem mostrar ligeira recuperação em 2010, com alta para US$ 1 bilhão.
O volume relativamente baixo se comparado ao anunciado pelas montadoras é reflexo, segundo o presidente do Sindipeças, do descolamento entre a produção nacional de automóveis e o índice de nacionalização, por lei fixado em no mínimo 60%. "O índice vai cair e chegar ao limite", disse.
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