Ano II – nº 118 – Fortaleza/CE – edição: 07.04.2010 |
Acordo da Vale acelera planos de rivais
CSN e Usiminas devem apressar planos de abrir capital de suas divisões de mineração após Vale conseguir aumento de 90%
CSN planeja elevar em 69% a sua produção de minério de ferro até 2014, enquanto Usiminas quer aumentá-la em mais de 500% no período
FOLHA DE S.PAULO - A Vale pode fazer com que as siderúrgicas CSN e Usiminas acelerem os planos de cisão e abertura de capital (IPOs, na sigla em inglês) de suas divisões de mineração, após a maior mineradora brasileira conquistar acordo que quase duplica os preços do minério de ferro, de acordo com o Bradesco.
CSN e Usiminas planejam ofertas públicas iniciais de ações para suas divisões de mineração, a fim de promover uma expansão de suas atividades em meio à recuperação econômica mundial. A Vale, maior produtora mundial de minério de ferro, conquistou um aumento de 90% com as siderúrgicas japonesas, e a renovação dos contratos passará a ser trimestral, o que melhora as perspectivas de colocação de novas ações, disse Raphael Biderman, analista do Bradesco. Embora quatro ofertas públicas iniciais brasileiras realizadas neste ano, entre as quais a da OSX, do bilionário Eike Batista, tenham arrecadado menos que o esperado, as siderúrgicas devem ter mais sucesso porque elas têm negócios estabelecidos que se beneficiarão dos preços mais altos, disse Biderman. A CSN pode arrecadar US$ 10 bilhões, afirmou ele, depois de registrar alta de 100% de suas ações no ano passado, como a Usiminas.
"Continua a existir espaço para elevação nos preços do minério de ferro, porque existe procura e não há grandes projetos de mineração em desenvolvimento", disse Biderman. A CSN "estava esperando por essa mudança de preços antes de iniciar negociações para uma oferta pública inicial".
Executivos da CSN se recusaram a comentar os planos da empresa, de acordo com uma porta-voz que pediu que seu nome não fosse mencionado, em respeito às normas da companhia. A siderúrgica começará a negociar com bancos neste mês para determinar o valor da subsidiária a ser cindida, afirmou o presidente-executivo, Benjamin Steinbruch, a jornalistas no mês passado.
A Usiminas planeja promover a cisão de sua divisão de mineração e logística e buscará um investidor minoritário antes de oferecer ações ao público, informou Leonardo Castro Alves, porta-voz da empresa, em mensagem de e-mail.
PLANOS : As minas controladas pela CSN e pela Usiminas, que combinadas planejam até 2014 produzir a metade do minério de ferro extraído pela Vale, provavelmente elevarão suas vendas devido à procura ampliada de parte da China, o maior parceiro comercial do Brasil, afirmou o analista do Bradesco. Os produtores de minério de ferro terão mais facilidade em elevar seus preços depois que a Vale rompeu com um costume que durava 40 anos e estabelecia que o minério de ferro fosse vendido por meio de contratos anuais a preço fixo, disse Biderman. A empresa anunciou acordo com 97% de seus clientes mundiais para a adoção de ajustes trimestrais de preços no fornecimento do minério.
A CSN quer elevar sua produção de minério de ferro em 69%, para 109 milhões de toneladas em 2014, de acordo com o site da empresa. A Usiminas planeja alta de mais de 500% em sua produção, para 29 milhões de toneladas anuais até 2014. A Vale, cujas ações subiram 74% nos 12 últimos meses, tem capacidade máxima de produção de 310 milhões de toneladas anuais, afirmou o presidente-executivo da companhia, Roger Agnelli, em novembro do ano passado.
Tradução de PAULO MIGLIACCI
Mineradora se queixa à UE de siderúrgicas
FOLHA DE S.PAULO (PEDRO SOARES) - Em mais um capítulo da disputa com as siderúrgicas europeias, a Vale notificou ontem a Comissão Europeia (braço executivo da União Europeia) sobre seu "desconforto com relação à possível quebra de regras da concorrência" por parte da Eurofer (Confederação Europeia das Indústrias de Ferro e Aço) e pediu uma investigação dos órgãos de defesa da concorrência.
Insatisfeitas com o reajuste de 90% do minério de ferro neste trimestre, as usinas levaram a questão aos órgãos de defesa da concorrência.
Mais abaladas pela crise que as empresas da Ásia, as usinas da Europa reclamam do reajuste e da correção trimestral de preço. O sistema foi inaugurado neste ano, após pleito das empresas chinesas, que queriam ter as cotações do mercado spot (à vista e com entrega imediata) como referência.
Em carta enviada à Comissão Europeia, a Vale acusa uma suposta "ação coordenada dos membros associados da Eurofer em sua forma de abordagem nas negociações em curso com a Vale".
"Qualquer comunicação ou ação coordenada provocaria sérias preocupações em relação às leis da concorrência e, nesta circunstância, gostaríamos de estimular a Comissão a investigar este tema", diz a carta.
A Vale diz rejeitar "as alegações da Eurofer de que a empresa tenha infringido as regras da concorrência da União Europeia durante as discussões com as siderúrgicas a respeito de acordos de fornecimento de minério".
Segundo a mineradora, as suas negociações "em todos os locais do mundo" respeitam "suas obrigações legais e contratuais". "Não discutimos ou compartilhamos informações sobre nossas estratégias de preços com nenhum concorrente [alegação apresentada pela Eurofer]."
A Vale informou no dia 1º que fechou acordos com a maioria de seus clientes sobre as novas condições de preços do minério de ferro, baseadas em referências do mercado spot (já dado um desconto por causa dos volumes maiores dos contratos) e em bases trimestrais.
Segundo a Vale, os acordos já assinados correspondem a 97% de sua base de clientes de minério de ferro em todo o mundo e a 90% dos volumes comercializados. Em nota, a Vale disse manter "seu compromisso em ser para seus clientes uma fonte de longo prazo, estável e confiável, e espera fechar com todos os seus compradores acordos que sejam mutuamente satisfatórios". Não são apenas as usinas europeias, porém, a reclamar da Vale. Assustada com o aumento de até 90%, a Cisa (Associação de Ferro e Aço da China) ameaça sustar as compras das três grandes mineradoras de ferro -Vale, BHP e Rio Tinto- sob alegação de monopólio.
Minério de ferro: Ação na Comissão Europeia visa neutralizar a Eurofer
Na disputa de preços, Vale usa mesma tática de siderúrgicas
VALOR ECONÔMICO - O confronto aberto pela Vale ao entrar ontem com queixa no órgãos de defesa da concorrência da Comissão Europeia contra as siderúrgicas locais por formação de cartel no mercado de aço, conforme comunicado da mineradora, indica que a empresa optou por uma linha de defesa agressiva contra a Eurofer (Confederação Europeia das Indústrias de Ferro e Aço). Essa é a avaliação de especialistas e analistas do setor. A entidade protocolou na semana passada uma ação acusando Vale, BHP Billiton e Rio Tinto de terem infringido as regras de concorrência da União Europeia por conta dos reajustes da ordem de 100% nos preços do minério de ferro. "No fundo, tudo isso é um jogo de cena, pois em algum momento ArcelorMittal e ThyssenKrupp, as maiores siderúrgicas da Europa, vão se acertar com a Vale, pois dependem umas das outras".
Para essas fontes, a Vale está se defendendo porque as siderúrgicas vieram agressivas contra a empresa num momento de proposta de mudança do sistema de reajuste de preços tradicional, o "benchmark" anual, pelo qual uma mineradora firmava contrato de longo prazo com uma usina de aço de porte, criando uma referência para todo o mercado. Mudou para um modelo que se baseia no comportamento do mercado livre e adota reajustes trimestrais.
"Todo mundo da indústria siderúrgica ainda está com a cabeça no 'benchmark' anual e está difícil raciocinar com base nos novos sistemas de referência, que é o mercado à vista", avaliam os especialistas. No entanto, avaliam essas fontes que o clima de "fogo cruzado" das siderúrgicas contra as mineradoras não vai levar a lugar nenhum. O boicote às três grandes mineradoras proposto na China pela Cisa (Associação das Siderúrgicas Chinesas), só vai tumultuar mais o mercado e ajudar a empurrar para cima o preço do minério no mercado livre, que ontem superou o patamar de US$ 160 a tonelada. Os estoques na China somam hoje 70 milhões de toneladas, e dão para consumo no máximo de um mês e meio.
O aquecido mercado chinês, porém, não pode ser comparado com o ainda morno mercado europeu. A Vale tem ali seus clientes mais tradicionais, pelo menos até a China despertar em 2002. No ano passado, as siderúrgicas do velho continente compraram 34,6 milhões de toneladas de minério de ferro e pelotas da mineradora brasileira, ou 13,6% de um volume total embarcado de 253,4 milhões de toneladas. O mercado europeu ficou em segundo lugar, logo depois do chinês, que importou 144 milhões de toneladas do minério da Vale, 56,8% das vendas totais de minério e pelotas da companhia.
Em 2008, a indústria europeia do aço consumiu 74,2 milhoes de toneladas do minério da Vale, ou 25,1% do volume total exportado de 295,1 milhões de toneladas. "O minério da Vale é fundamental para os alto fornos das usinas europeias terem boa produtividade, já que têm um custo mais elevado, terem boa produtividade", disse um analista de banco. A ArcelorMittal, por exemplo, maior siderúrgica do mundo, tem um contrato de fornecimento de longo prazo assinado com a Vale de 48 milhões de toneladas anuais do produto para suas usinas. Disso, 20 milhões de toneladas são para usinas que têm no Brasil e o restante para Europa.
No comunicado que a Vale divulgou ontem, informando que "estava notificando à Comissão Europeia seu desconforto com relação à possivel quebra de regras da concorrência na Europa pela Eurofer", a mineradora, além de rejeitar as acusações da entidade de que infringiu regras da concorrência da União Europeia, expressa sua preocupação "com o fato de que possa ter havido uma ação coordenada dos membros associados da Eurofer em sua forma de abordagem nas negociações em curso com a Vale". A companhia acrescenta ainda que "gostaria de estimular a Comissão a investigar este tema".
O Valor procurou a Vale para uma entrevista com o diretor de ferrosos, José Carlos Martins, para saber mais detalhes sobre essa decisão tomada pela empresa. Mas o executivo não se encontrava mais na sede da companhia. Também não foi possível fazer contato com a assessoria na parte da tarde.
Para Pedro Galdi, analista de mineração da SLW Corretora, a mineradora está argumentando nas entrelinhas que no ano passado, com a crise econômica, as siderúrgicas chegaram a solicitar à ela uma redução nos volumes de compra de minério acertados nos contratos de longo prazo e passaram a adquirir o produto com base em descontos sobre o preço de referência porque o mercado à vista estava mais barato. "O ano de 2009 foi o ano das siderúrgicas e elas nadaram de braçada. 2010 é o ano das mineradoras", ressalta Galdi. Para ele, o jogo, nesta queda de braço, já está definido.
Metalúrgicos de SP ameaçam greve por jornada menor
FOLHA DE S.PAULO - Os metalúrgicos de São Paulo (ligados à Força Sindical) preparam uma onda de paralisações nas indústrias, a partir da próxima semana, para pedir redução da jornada para 40 horas semanais.
Segundo Miguel Torres, presidente do sindicato da categoria, foram fechados 25 acordos de redução da jornada, entre janeiro e março deste ano, que beneficiam 5.800 trabalhadores. Esses acordos preveem a redução gradativa da jornada, para que as empresas possam programar a produção com menos horas de trabalho.
Na próxima terça-feira, dia 13, sindicatos e centrais sindicais devem fazer uma manifestação, que pretende reunir 20 mil pessoas, em frente ao prédio da Fiesp (federação das indústrias paulistas), na avenida Paulista.
O objetivo é pressionar a federação a abrir negociação sobre a jornada de 40 horas. A legislação prevê jornada de 44 horas semanais, embora vários sindicatos já tenham conquistado, em acordos negociados com os patrões, jornadas inferiores.
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