Notícia

 

Ano II – nº 110 – Fortaleza/CE – edição: 24.03.2010

 

Minério de ferro: Estimativa aponta necessidade de correção imediata de até 15% nos preços do aço em abril

Novo reajuste nos preços de minérios de ferro da Vale terá forte impacto na cadeia

VALOR ECONÔMICO - O novo sistema de preços do minério de ferro da Vale, com correção atrelada a um índice baseado no mercado à vista e com reajustes trimestrais, o qual foi encaminhada às siderúrgicas neste mês, pode provocar uma profunda mudança na comercialização de toda cadeia mínero-siderúrgica caso seja acatado pelas usinas de aço, avaliam analistas e consultores ouvidos pelo Valor.
As siderúrgicas terão que estender as negociações das novas regras a clientes de grande porte, como a industria automobilística, de bens de capital e de eletrodomésticos, avaliam analistas. Para Pedro Galdi, da SLW Corretora, o novo padrão de reajuste do minério, que segue o padrão adotado também para o carvão - os dois insumos mais pesados no custo do aço - vai "injetar inflação na veia da economia".
De acordo com um executivo de uma siderúrgica, o impacto do aumento do minério, considerando o mix de finos (tipo sinter feed) e pelotas é da ordem de R$ 180 por tonelada de aço. resultado disso é um aumento imediato 12% a 15% no preços do aço, dependendo do produto e cliente. "Quando forem conhecidos os novos preços de carvão, os aços devem ser reajustados de novo".
Fonte do setor siderúrgico que acaba de voltar da China informou ao Valor que as negociações atualmente em curso entre a Vale e seus clientes internacionais, com destaque para os chineses, estão provocando forte reação das usinas de aço por causa da ordem de grandeza envolvida no processo de alta do minério (mais de 100%) e por conta do novo sistema trimestral para os reajustes. "O 'benchmark' (preço de referência para contratos de longo prazo reajustado a cada ano, há 40 anos) trazia uma estabilidade grande à cadeia produtiva do aço. Agora, depois de saírem do estresse provocado pela crise, as siderúrgicas estão considerando este processo de revisão mais curta do preço um forte complicador do seu negócio", avalia.
O cenário mais provável para um consultor da área siderúrgica é a aceitação pelas siderúrgicas da proposta da Vale, já que nos próximos dois a três anos o mercado de minério estará tendendo para o lado do vendedor. "Se a Vale já formou preços para o segundo trimestre, certamente as negociações estão em processo final, pois 1º de abril está próximo". Mas mesmo se tratando da criação de um índice de preços (Iodex), ele não afasta a negociação cliente a cliente. "No acerto final, a mineradora vai resolver com sua clientela caso a caso, mesmo tendo enviado já uma tabela de preços para o minério a vigorar entre abril e junho".
O especialista argumenta que o mundo está se recuperando da recessão de forma desigual e é diferente a Vale negociar com uma industria que está num país em recuperação e outra que está ainda numa economia reprimida. Por isso, a Vale vai ter que ter sintonia fina para fechar acordos nas novas bases e evitar reações em cadeia contra sua proposta, alerta ele.
O mercado mostrou otimismo com a notícia sobre a alta do minério, tanto que a ação teve alta na Bovespa e os ADRs subiram em Nova York. Para um analista de mineração de banco estrangeiro, o que está acontecendo agora com o minério já ocorreu com todas as commodities, ou seja, ter as cotações revistas em prazos menores. E o mercado à vista reflete bem melhor a demanda atual pelo minério.
A Vale divulgou ontem comunicado onde confirma que está buscando estabelecer uma nova política comercial com seus clientes, envolvendo nesse processo maior flexibilidade em relação aos preços do minério, numa tentativa de se adaptar ao mercado atual. Na nota, a mineradora informou que não enviou nenhum comunicado ao "mercado de capitais" sobre preços dos seus produtos. Evitou, porém, comentar sobre a proposta enviada para seus clientes, como antecipou o Valor. "A Vale, conforme documentos arquivados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e demais órgãos reguladores, já informou oficialmente que implementou nos últimos tempos uma nova política comercial, envolvendo, entre outras coisas, uma abordagem mais flexível com relação aos preços do minério de ferro, inclusive quanto a sua forma de venda (C&F, FOB)", afirmou. A Vale considera na nota que "flexibilidade esta plenamente aplicável aos mercados e clientes nas mais diversas geografias em que atua".

Com demanda forte por minério, Vale quer preço mais "flexível"

FOLHA DE S.PAULO - A Vale busca consolidar uma "nova política comercial", o que tem irritado siderúrgicas europeias e chinesas. O foco da mudança é o sistema benchmark, adotado há 40 anos, pelo qual o primeiro acordo mundial de reajuste de preço do minério de ferro entre uma mineradora e um cliente acabava valendo para todo o mercado. A Vale pretende abandoná-lo.
Ontem, a empresa voltou a dizer que busca uma política comercial com "abordagem mais flexível em relação aos preços do minério de ferro". Com a demanda puxada pela China, grandes mineradoras impuseram alta de 268% entre 2005 e 2008 em contrato.
O modelo benchmark prevê um preço fixo pelo período de um ano. Já quem não tinha contrato estava sujeito às altas do mercado à vista ("spot"). Em 2009, a crise jogou os preços "spot" abaixo daqueles nos contratos. E a Vale não teve como impor reajuste no benchmark: cortou preço em 28%, em junho.
Reportagem do "Valor Econômico" de ontem disse que a Vale comunicou a clientes que adotaria o índice Iodex (índice de minério de ferro), criado em 2008. Segundo o jornal, o sistema considera preços "spot" nos dois meses anteriores, segundo o índice americano Platts, e valeria para os dois meses seguintes. Segundo o site da CVM, em apresentação a investidores realizada em fevereiro, a Vale fez menção ao Iodex, mostrando que seu patamar, em fevereiro, era de US$ 123, ou 114% acima do preço praticado em março de 2009.
A Vale disse que "não fez comentários ao mercado de capitais sobre o preço de seus produtos" e não respondeu se fez comentários a clientes.

Exportações de minérios de ferro podem subir mais de US$ 11 bi

VALOR ECONÔMICO - As exportações brasileiras de minério de ferro podem ter um ganho superior a US$ 11 bilhões entre abril e dezembro deste ano na comparação com o mesmo período de 2009, considerando um reajuste de 114% para os preços do produto e a manutenção das cotações nesse nível até o fim de 2010.
No ano passado, o Brasil exportou US$ 9,9 bilhões de minério de ferro entre abril e dezembro, valor que pode subir para US$ 21,2 bilhões nos três últimos trimestres de 2010, na hipótese de prevalecer o aumento pretendido pela Vale, segundo a MCM Consultores. Nesse exercício, não se leva em conta uma possível alta do volume exportado. O forte reajuste do produto deve impedir uma queda mais forte do saldo comercial neste ano na comparação com 2009, quando ficou em US$ 25,4 bilhões.
Ao mesmo tempo, a alta do minério de ferro terá impacto desfavorável sobre a inflação: no caso dos Índices Gerais de Preços (IGPs), um aumento de 114% provoca uma elevação de 1,92 ponto percentual, sem contar os efeitos indiretos no atacado, sobre produtos siderúrgicos e de metal, e no varejo, principalmente sobre bens duráveis, como veículos.
Por enquanto, os analistas não alteraram oficialmente as suas projeções para a balança comercial e para a inflação. O economista Alexandre Gallotti, da Tendências Consultoria, observa que o novo sistema de definição de preços definido pela Vale, com mudanças trimestrais, traz muita incerteza para as previsões. A Tendências trabalhava com exportações de minério de US$ 22,4 bilhões em 2010, resultado de uma alta de 13% do volume e de um reajuste de preços de 80% a partir de abril. Se os preços subirem 114% e ficarem nesse nível até o fim do ano, as vendas externas atingirão US$ 26 bilhões em 2010, quase o dobro dos US$ 13,3 bilhões do ano passado, diz Gallotti. Mesmo assim, o mais provável é que a consultoria não eleve a sua projeção de saldo comercial do ano, de US$ 20 bilhões, já uma das mais otimistas. O ponto é que as importações têm crescido com força. Em vez de um aumento de 24%, como previsto anteriormente, é possível que as compras externas cresçam de 30% a 35% no ano, avalia a consultoria.
O economista Fábio Silveira, da RC Consultores, mostra ceticismo quanto à possibilidade de a Vale conseguir um aumento superior a 100%. "Será que os chineses vão aceitar um reajuste dessa magnitude?" Silveira, que previa exportações de US$ 16 bilhões neste ano, acha possível um número de US$ 18 bilhões ou, com muito otimismo, de US$ 20 bilhões. Ele diz que não pretende mudar a sua projeção para o saldo comercial, de US$ 5 bilhões, porque os preços da soja e do açúcar têm caído bastante e as importações seguem fortes.
Já o analista Antônio Madeira, da MCM, acha que o reajuste do minério pode ter um impacto favorável sobre a balança, mas acha prematuro fazer qualquer estimativa neste momento. A MCM projeta um superávit de US$ 12 bilhões.
Para a inflação, o aumento é uma má notícia. A economista Basiliki Litvac, também da MCM, já trabalhava com uma elevação de 25% do produto ao longo do ano, projetando um IGP de 6,9%. Caso o minério de ferro suba 114%, o indicador ficaria em 8,4%. "Mas isso é uma projeção que considera o repasse integral no mercado interno", alerta Basiliki, que não revisou oficialmente a sua previsão.
O economista Fábio Romão, da LCA Consultores, diz que os repasses do aumento do minério no mercado interno não costumam ser integrais. Uma alta de 114% do produto no front externo o levaria a elevar sua previsão para os IGPs de 7,5% para 8,5%, considerando os impactos diretos e indiretos sobre produtos siderúrgicos e de metal.
No varejo, as projeções são mais complicadas. Basiliki diz que os bens duráveis devem ter alguma alta, em função do provável aumento do aço. Além disso, tendem a subir itens corrigidos parcial ou integralmente pelos IGPs, como tarifas de energia e aluguéis.
O mercado já projeta um Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 5,1%, acima do centro da meta, de 4,5%.

China planeja importação menor de minério de ferro

VALOR ECONÔMICO - A China poderá importar mais aços especiais e produtos manufaturados, para reduzir a importação direta de minério de ferro e combater o monopólio da Vale, Rio Tinto e BHP no mercado mundial. Foi o que avisou ontem o representante chinês Hu Jiangyun, do Centro de Pesquisa do Conselho de Estado da China, num fórum global sobre commodities.
Ele apresentou um quadro estimando que os chineses foram submetidos a cobrança "excessiva" de US$ 100 bilhões (700 bilhões de yuan) no preço de minério de ferro nos últimos seis anos. E argumentou que Pequim poderá importar mais manufaturados e aço originários da União Europeia, Rússia e Ucrânia, que se encaixaria numa estratégia mais ampla da China.
"Ninguém fica contente com essa fatura do minério de ferro. E se importarmos mais manufaturados, podemos reduzir também nosso superávit com parceiros que estão reclamando", disse ao Valor. Um problema que vê é que os EUA e a União Europeia restringem a exportação para a China de vários produtos com valor agregado.
A Vale, Rio Tinto e BHP controlam cerca de dois terços do mercado de minério de ferro, que tem valor de US$ 200 bilhões por ano, de acordo com o Credit Suisse. A China é uma das maiores importadoras. No fórum organizado pela Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), as avaliações foram de que os produtores da commodity tem "futuro brilhante", desde que consigam estabelecer seus preços em "limites razoáveis".
"Existe potencial de conflito entre comprador e vendedor nesse mercado", disse Ericsson Magnus, diretor da Raw Materials Group, da Suécia. "A concentração das (três empresas) é excessivamente alta, e mais ainda se a joint venture entre BHP e Rio Tinto for aceita". Ericsson e um representante do Ministério de Recursos Minerais da África do Sul, Sandile Nogxina, se juntaram ao chinês Jiangyun, por um mecanismo de vigilância dos preços dos minério de ferro, commodity principal do aço.
O argumento do representante chinês é de que o "controle" dos três grandes distorce o mercado, força com seus preços o produtor chinês aumentar o custo de automóveis, infraestrutura etc, mas evitou mencionar nomes das empresas. A fatura de 700 bilhões de yuan já foi usada pelas autoridades chinesas para acusar a australiana Rio Tinto no processo contra alguns de seus funcionários, envolvidos na venda de minério de ferro, que teriam subornado funcionários chineses para obter informações industriais secretas.
Um jornal chinês publicou ontem que as autoridades investigam o estoque de minério de ferro importado em portos como Tianjin, Qingdao e Rizhao. Suspeita que produto de baixa qualidade entrou no mercado ao mesmo tempo em que os preços cresciam, custando mais para as empresas e piorando os problemas ambientais. Magnus, da RMG, também considera que a demanda chinesa continuará a alimentar os grandes negócios do setor de mineração. Sua expectativa é de que globalmente a demanda crescerá 3,3% em média até 2020, comparado a 6% de 1998-2008 - e grande parte vem da China.
O especialista estima que a tendência dos preços continuará sendo de alta. De um lado, a exploração foi duramente afetada, numa situação perigosa para o futuro. A produção da mineração em geral este ano voltará apenas aos níveis de 2007. O valor do setor não deve passar dos US$ 400 bilhões, comparado a US$ 463 bilhões em 2008.
De outro lado, a demanda de minério de ferro poderá superar os 2 bilhões de toneladas em 2013/14. Certos analistas estimam que o consumo de aço na China deve dobrar até 2020 em relação a 2008 em razão da continua urbanização, com mais projetos de infraestrutura etc.
Em 2009, a China foi responsável por 47% da produção mundial de aço bruto no ano passado. Mas o cenário mais provável é de fechamento gradual de mais siderurgias velhas chinesas.

LME estuda começar negociação de contratos em 2010

VALOR ECONÔMICO - A London Metal Exchange (LME), a maior bolsa de metais do mundo, está considerando introduzir uma "clearing" (câmara de compensação) para operações de minério de minério, revelou ontem seu presidente, Martin Abbot, em entrevista ao Valor.
O executivo descartou, porém, a introdução de um contrato global de minério de ferro, pelo menos em futuro próximo, contrariando especulações nesse sentido entre analistas no fórum global sobre commodities, em Genebra.
Com a introdução do registro, controle e compensação de ajustes diários, a LME estima que dará mais garantia e segurança nas negociações de futuros do minério de ferro. Para a empresa Raw Materials Group, da Suécia, a introdução de um contrato de minério de ferro até 2010 parece inevitável. Com isso, contratos anuais negociados pelas três grandes - Vale, Rio Tinto e BHP - com siderúrgicas seriam gradualmente substituídos por mais 'spot trading'.
A BHP, uma das três maiores, também previu que a crescente liquidez no mercado global de minério de ferro levará seus clientes a passar para o 'spot' mais e mais.
No entanto, o presidente da LME insistiu que o tema não está no radar em Londres. Prefere, no momento, se concentrar nos contratos de aço que, segundo ele, são um sucesso, com 3,5 milhões de toneladas negociadas, com valor de US$ 1,5 bilhão desde abril de 2008.
Abbot diz que também vêm sendo bem sucedidos os contratos de derivativos de cobalto e molibdênio, dois ditos metais menores usados em telefone celular, por exemplo. A introdução dessas operações ocorreu em meio ao forte apetite de investidores, diante do crescente consumo chinês.
Analistas notam uma enorme volatilidade nos preços dos dois produtos nos últimos anos. Por outro lado, veem dificuldades da LME para emplacar os contratos de plásticos, por exemplo, algo que o executivo também contesta.

Sistema de correção de preço Iodex terá gatilho

VALOR ECONÔMICO - A Vale informa no documento enviado às siderúrgicas, onde divulga seu novo sistema de preços do minério, que o valor base do Iodex deverá ser corrigido em primeiro de julho. Essa correção, observa a mineradora, deverá ocorrer se o preço de referência, que determinou o valor dos diversos tipos de minério vendidos pela Vale no segundo trimestre, sofrer variação acima ou abaixo de 5%.
Esse percentual de 5% para mais ou para menos funciona como um gatilho que aciona a mudança do preço de referência, ou preço base do Iodex, para cima ou para baixo. Consequentemente, influencia os preços que vão vigorar nas novas tabelas trimestrais para os diversos tipos de minério da Vale. Os valores trimestrais subirão, descerão ou serão mantidos com base nesta margem de oscilação pela metodologia Platts.
Além desse tipo de gatilho, que evita que o preço do minério flutue ao sabor do mercado, o Platts também tem regras para que se calcule o valor do prêmio de qualidade do minério. O prêmio é contabilizado pelo Value in Use (VIU), ou seja, pela mensuração da qualidade do minério no processo de transformação no alto forno, se tem mais ou menos sílica, entre outros.
Essa metodologia foi a que levou aos US$ 4,56 estabelecidos como ganho por cada um ponto percentual de teor de ferro por tonelada de minério que ultrapassar os 62% adotados pelo index Platts e outros, como Metal Bulletin e SBB. Os US$ 4,56 foram aferidos levando-se em conta um valor de US$ 1,95 pelo diferencial de produtividade por tonelada de minério e de US$ 2,61 por sinergia de custo.
A Vale já calculou prêmio de US$ 13,68 para o minério com teor 65% (3 vezes US$ 4,56) e US$ 18,24 a tonelada métrica para o de 66% de teor (mais comuns de seus tipos de minérios). "O prêmio relativo à qualidade será estabelecido com base no diferencial do ponto de ferro publicado pelo Platts", aponta o documento.
Sobre o frete, subtraído do cálculo do valor médio da tonelada de minério no 'spot' na nova sistemática mais o prêmio de qualidade, a mineradora explica que será calculado conforme o custo de reposição do chamado frete de longo prazo (LTC) para os principais clientes da Ásia. Em 2010, vai vigorar o preço de US$ 18,58 por tonelada métrica embarcada. O número só será ajustado se houver variação nos preços do óleo de navio.


 

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