Ano II – nº 104 – Fortaleza/CE – edição: 15.03.2010 |
Minério de ferro: Steel compra Mhag por US$ 245 milhões e investe na Miba
VALOR ECONOMICO - A Steel Participações, empresa ainda não-operacional constituída em agosto de 2008, comprou por US$ 245 milhões o controle da Mhag, mineradora com jazidas quase intocadas no Rio Grande do Norte. A aquisição foi confirmada ontem em fato relevante emitido pela Steel, segundo o qual as jazidas da Mhag têm potencial para conter 3,5 bilhões de toneladas de minério de ferro - 400 milhões já confirmados.
Com o investimento, a Steel levou 70% do capital da Mhag, adquirindo a participação do empresário paranaense Edson Duda, oriundo do ramo imobiliário e de distribuição de combustíveis. Por ora, permanece no capital da Mhag a trading Noble Group, sediada em Hong Kong, que comprou 30% da empresa em 2007. Mas, segundo a nota publicada ontem, caso a Noble não feche um acordo sobre um novo contrato de fornecimento de minério, a Steel levará 100% da Mhag por US$ 350 milhões.
Segundo o comunicado, a Mhag resolveu o principal obstáculo ao negócio, uma pendência judicial de US$ 187 milhões com a corretora Pedrinha Representações. A primeira decisão da Justiça, proferida no fim de janeiro, foi favorável à mineradora.
A Steel Participações também informou que fechou um contrato para a aquisição de, no mínimo, 80% da produção da empresa Mineração Minas Bahia (Miba), proprietária de reservas de ferro no norte de Minas Gerais estimadas em 5 bilhões de toneladas. O projeto visa transportar o minério até a costa da Bahia pela ferrovia Leste-Oeste, prevista no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O acordo inclui uma joint venture, na proporção de 50% para cada empresa, para explorar outros ativos de propriedade da Miba no norte de Minas. O valor total do investimento da Steel na Miba é de US$ 190 milhões.
A aquisição da Mhag marcará a entrada da Steel participações no seu primeiro projeto operacional - a empresa, de propriedade do fundo Metropolis Capital Markets Gmbh, com sede em Frankfurt, ainda não tem geração de caixa. A Mhag teve uma produção incipiente entre 2007 e 2008, totalizando 300 mil toneladas, e depende de investimentos altos para conseguir escala comercial. O plano da mineradora Mhag - quando ainda nas mãos do empresário Edson Duda - visavam alcançar uma capacidade de 12 milhões de toneladas depois de 2013, a um custo de US$ 1,2 bilhão. No fato relevante da Steel, a mineradora atingirá 16 milhões de toneladas ainda no fim de 2012. As minas estão a 120 km do litoral potiguar.
Em junho de 2009 a Steel abriu o capital e, mesmo sem fazer oferta pública de ações, listou seu capital na Bovespa. Em dezembro, o controlador leiloou 9,11% do capital da empresa, arrecadando R$ 53 milhões para financiar os seus planos de investimento. Em janeiro, os controladores da Steel nomearam o executivo Juarez Saliba, com 25 anos de experiência na Vale e na CSN, para presidir a empresa.
Estaleiro: o que a experiência de PE pode mostrar ao Ceará ESPECIAL:DIÁRIO DO NORDESTE (SÉRGIO DE SOUSA) 13.03.2010
Ao contrário do Ceará, estaleiro pernambucano foi planejado há 40 anos e construído longe da área urbana
Ipojuca (PE) Um empreendimento que, há cinco anos, competia no mercado ainda como "virtual", gerando ainda ceticismo de várias partes, lança ao mar, até o fim deste mês, a sua primeira cria: um gigante Suezmax, embarcação com 274 metros e capacidade para transportar 1 milhão de barris de petróleo. Hoje, o Estaleiro Atlântico Sul (EAS), localizado no município pernambucano de Ipojuca, já é realidade, e traz consigo dois trunfos: o de ser a maior fábrica de navios em seu hemisfério e, além disso, ser o marco da descentralização da indústria naval no Brasil, até então concentrada no Rio de Janeiro. Por conta dessa história de sucesso, ele atrai, mais do que nunca, as atenções de lideranças políticas e industriais cearenses. O motivo disso é traçar um paralelo entre o que acontece por lá e o que poderia ocorrer aqui, caso o Promar Ceará, novo projeto de estaleiro cearense, seja, de fato, concretizado. O Diário do Nordeste foi, então, até Pernambuco para conferir.
ORIGEM VIRTUAL : Assim como o cearense, o Estaleiro Atlântico Sul (EAS) surgiu como virtual (ou seja, venceu licitação para construção de navios antes de ser construído), mas foi concebido após um longo planejamento, que já reservava toda uma região para receber o empreendimento.
O empreendimento pernambucano já era pensado há, pelo menos, 40 anos, e esta pode ser a principal diferença entre os dois projetos, influindo, diretamente, nos impactos que esta indústria vem a trazer ao local onde é instalada.
O EAS está encravado em uma área de 162 hectares no Complexo Industrial de Suape (o equivalente a 400 campos de futebol), longe da área urbana da cidade e onde próxima está apenas uma comunidade de cerca de 52 famílias. Já o Promar Ceará prevê sua localização dentro da capital do Estado, em meio à vida urbana. Por não contar com uma área do tamanho e com as mesmas condições favoráveis de geografia encontrada em Ipojuca, município a 57 quilômetros de Recife, o projeto de estaleiro cearense não tem as mesmas possibilidades de expansão que tem o pernambucano, e ainda exigirá uma diferente engenharia para dotar a enseada do Mucuripe da infraestrutura necessária para um estaleiro, como aterramento na praia, coisa que não ocorreu por lá. O Promar aguarda resultado de licitação da Transpetro para se tornar real, se vencer o certame.
IMPACTOS : Contudo, apesar dessas diferenças, os impactos econômicos claramente gerados especialmente na região metropolitana de Recife (RMR) seriam, resguardadas as devidas proporções, também sentidos por aqui. O fato concreto que confirma tal afirmação é a criação de milhares de empregos. No EAS, são cerca de 4,5 mil diretos. No Promar Ceará, 1,2 mil. Isso sem contar com postos indiretos que surgem em decorrência do empreendimento. Em Pernambuco, prevê-se, no pico das atividades do estaleiro, 20 mil. Deste total de postos diretos, um porcentual de cerca de 80% é formado por trabalhadores pernambucanos, em especial os moradores de cinco municípios no entorno do complexo industrial: Ipojuca, Cabo de Santo Agostinho, Jaboatão, Moreno e Escada. Como não havia por lá uma mão-de-obra preparada para este tipo de atividade no Estado, o consórcio empresarial que forma o EAS investe, de 2007 até o final deste ano, aproximadamente R$ 12 milhões em capacitação, que é realizada de forma gratuita aos aprendizes. É exatamente a promessa dessa geração de emprego o argumento mais forte que vem sendo trabalhado para justificar a importância da vinda do estaleiro Promar Ceará. Inserido em um dos bairros mais pobres da Capital, o novo estaleiro poderia ser a esperança de ingresso no mercado de trabalho formal a centenas de jovens e adultos do Serviluz, além de outros bairros da cidade, podendo as possibilidades até transporem as barreiras de Fortaleza.
MÃO-DE-OBRA : Apesar de ainda não apresentado formalmente, um projeto de formação de mão-de-obra, nos moldes do que ocorre em Ipojuca, também seria construído em Fortaleza. A PJMR - empresa de participação acionária e gerenciamento de empreendimentos na área de construção naval e offshore -, que concebeu o virtual Promar Ceará, é a mesma que iniciou o projeto do EAS. Ela, segundo já afirmado por seus diretores, tem em seus planos realizar o mesmo trabalho de formação em Fortaleza, até pela falta de pessoal qualificado no mercado.
POLÊMICA: Logo após a definição da enseada do Mucuripe como local escolhido para novo estaleiro cearense, uma enxurrada de críticas e defesas vêm sendo feitas ao projeto. Apesar de estar inserido em contexto diferente, a experiência do EAS, empreendimento nordestino e exemplo da retomada da indústria naval no País, é importante para se compreender como um estaleiro de grande porte pode mexer com a realidade em seu entorno.
MEIO AMBIENTE (13/3/2010)
Planejamento é peça chave
Licença prévia do EAS foi exigida para participar de licitação. Ibama ainda não recebeu pedido para licença do Promar Ceará
Desde a década de 1970, Pernambuco já previa a instalação de um estaleiro em seu litoral sul. Naquele período, foi elaborado o Plano Diretor do Complexo Industrial de Suape, já reservando uma área para o empreendimento. Este fator foi essencial para a celeridade das obras do estaleiro, segundo afirma o diretor administrativo e de RH do EAS, Gerson Beluci. Já no Ceará, a falta dessa programação prévia pode ser um dos maiores entraves para a concretização da nova fábrica de navios.
"Para que o Atlântico Sul pudesse participar da licitação do Promef, foi exigido que ele tivesse já a sua Licença Prévia, que é o que garante que o empreendimento tem a aprovação do órgão ambiental, é viável economicamente. E para obtê-lo, precisa ter o EIA/Rima [Estudo e Relatório de Impacto]", afirma. Este documento, explica, dura cerca de seis meses para ser elaborado, mas foi concluído em três meses para o EAS, já que as condições eram favoráveis, com um Plano Diretor já pronto no complexo. O Estaleiro Atlântico Sul encontra-se na Ilha de Tatuoca, que é uma área abrigada, ou seja, não está em mar aberto. Essa condição, inexistente na costa cearense, fez com que não houvesse necessidade de maiores intervenções no local, como aterramento ou construção de quebra-mar, como seria necessário fazer no Ceará, caso o estaleiro vá para a enseada do Mucuripe. Contudo, está sendo necessário realizar uma dragagem, aumentando o calado do cais de acabamento da indústria.
"Todo empreendimento tem seu impacto. Temos cinco mil funcionários aqui dentro. Então, a gente vai ter movimentação de caminhões, geração de resíduos sólidos gigantesca, emissão de gases. Tem o consumo de água, geração de efluentes, a questão da sobrevivência dos peixes, mas que está sendo mitigada. Tudo isso foi avaliado previamente, já apontando suas medidas mitigadoras", diz.
NO CEARÁ : Esse planejamento ainda não foi realizado no Ceará, pelo menos segundo afirma o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), órgão responsável pelo licenciamento deste tipo de empreendimento, avaliando o EIA/Rima que deve ser elaborado pela empresa.
Segundo o responsável por licenciamento ambiental do Ibama no Ceará, Djalma Paiva, não há pedido para iniciar o processo. Sobre aproveitar o licenciamento ambiental para ampliação do Porto do Mucuripe, como propõe o Governo do Estado, Paiva descarta a possibilidade. "São dois empreendimentos totalmente diferentes", ressalta. "Uma coisa é um porto para atracar navio, o que pode ser feito até em alto mar. Outra coisa é uma fábrica de navios. Não tem nem semelhança".
A autorização para construir um estaleiro no Serviluz é de competência do órgão federal pois, conforme Paiva, parecer da consultoria jurídica do Ministério do Meio Ambiente determina que cabe ao Ibama o licenciamento ambiental de empreendimentos que envolvem mais de um estado e com alto impacto ambiental. "É um empreendimento em mar territorial, que vai do Amapá ao Rio Grande do Sul", explica.
Promef é aposta da renovação
Frota naval do Brasil vive nova retomada, no governo Lula, depois de quase duas décadas de estagnação
(CAROL DE CASTRO –REPÓRTER) - A atual retomada da construção de navios de grande porte no Brasil deu-se em caráter de urgência, depois de quase duas décadas de estagnação. Durante os anos de 1960 e 1970, o Brasil atingiu seu ápice na indústria naval e conquistou o segundo lugar no ranking mundial, exportando para países como EUA Unidos, Inglaterra, Alemanha, França e Grécia e oferecendo 40 mil empregos. A revitalização do setor no País se dá por meio do Programa de Modernização e Expansão da Frota (Promef), que faz parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal. Por ele, a Transpetro, braço logístico da Petrobras, se prepara para navegar com uma frota renovada. Os 49 novos petroleiros garantirão autonomia e controle no transporte da produção da Petrobras e poderão servir de alicerce para o renascimento da indústria naval brasileira. A indústria da construção naval começou a se desenvolver nos tempos coloniais. Os portugueses perceberam as vantagens de construir navios aqui: fartura e qualidade das madeiras e a mão-de-obra indígena.
O Rio de Janeiro se transformou em um pólo naval. Mas, a partir de 1890, época de evolução na indústria mundial, o Arsenal do Rio estagnou. Os 47 anos seguintes foram de decadência e quase total paralisação da construção naval brasileira.
Em 1937, foi retomada a construção naval no Brasil, com o lançamento ao mar do Monitor Fluvial Parnaíba. A produção ganhou um certo fôlego.
A partir de 1958, vieram a criação do Fundo de Marinha Mercante e depois a organização do Geicon (Grupo Executivo da Indústria de Construção Naval), e da Comissão de Marinha Mercante, que faziam parte do Plano de Metas do Governo Juscelino Kubitscheck. Era o renascimento da grande construção naval mercante no Brasil. Depois de um modesto começo, o progresso foi contínuo e notável até 1979, quando teve início uma grave crise na indústria de construção naval. A situação começou a mudar com Promef.
ENTREVISTA Sérgio Machado
´Renovar para não perecer´ (Carol de Castro – Repórter)
O presidente da Transpetro, o cearense Sérgio Machado, comanda a estratégia de situar o Brasil em destaque no cenário da indústria naval internacional. Ele aposta no Promef e treinamento
COMO O SENHOR DEFINE O ATUAL MOMENTO DA INDÚSTRIA NAVAL DO BRASIL? A indústria naval, como a construção pesada e os bens de capital de uma forma geral, é fruto de planejamento, pois o retorno vem no longo prazo. Assim, o auge vivido pelos estaleiros nos anos 1970 foi consequência de investimentos iniciados ainda na década de 50, graças ao presidente Juscelino Kubitschek. Visionário, JK lançou as bases que permitiram ao País tornar-se o segundo maior construtor de grandes navios no mundo, na década de 70. Com as crises do petróleo e da dívida externa, o Brasil perdeu o ritmo que o tornara até então o líder mundial em crescimento econômico desde o início do século, ao lado do Japão. As encomendas foram praticamente interrompidas, e navios e plataformas de exploração e produção de petróleo passaram a ser importados. Esse quadro foi revertido pelo presidente Lula, que determinou a construção no Brasil da plataforma P-51 e das seguintes, assim como das embarcações de apoio à exploração de óleo e gás offshore. Logo em seguida, o presidente deu a partida ao Programa de Modernização e Expansão da Frota (Promef) da Transpetro. Mudamos paradigmas, concentrando encomendas em prazo relativamente curto para conferir escala aos estaleiros e incentivando novos investidores. A modernização dos estaleiros já existentes é outro fruto importante de nosso programa de encomendas. A determinação do governo federal em viabilizar a construção naval fez com que o setor florescesse. Em seis anos, o Brasil já se tornou a quinta maior carteira de petroleiros do mundo, e possui 10% das encomendas de Suezmax, navios de grande capacidade (160 mil toneladas de porte bruto tpb, que equivalem a um milhão de barris de óleo).
QUAL A META DA TRANSPETRO PARA A INDÚSTRIA NAVAL BRASILEIRA? A principal meta é alcançar, ao longo do Promef, preços e qualidade internacionalmente competitivos. Para isso, além de garantir escala aos estaleiros, é necessário investir em instalações, tecnologia e capacitação profissional para assegurar a curva de aprendizado: com o volume de encomendas e ganhos de produtividade, o custo do segundo navio será menor que o do primeiro, e assim por diante. É nessa direção que a indústria naval caminha.
O QUE ISSO REPRESENTA NO CENÁRIO INTERNACIONAL? O Brasil está retomando uma posição destacada no mercado mundial de navios de grande porte, como já ocorrera nas décadas de 60 e 70, quando chegou a ser o segundo maior fabricante. Hoje, o Brasil já possui a 5ª maior carteira mundial de encomendas de petroleiros e 10% da carteira de navios do tipo Suezmax.
O QUE SERÁ FEITO NA INDÚSTRIA NAVAL BRASILEIRA DEPOIS DO PROMEF? O Promef foi dividido em fases. Estamos nas duas primeiras, que foram concebidas antes das descobertas do pré-sal. Com este novo cenário de crescimento na produção de petróleo e gás, serão necessários mais navios. Por isso, já estamos estudando a terceira fase. O programa terá continuidade. É bom ressaltar que as encomendas para a indústria naval brasileira vão além do Promef. Veja as encomendas da Petrobras já anunciadas. São 146 barcos de apoio, 28 sondas, 10 plataformas e mais 21 petroleiros. É uma demanda forte e de longo prazo. Nenhum país no mundo tem essa demanda hoje. Daí a necessidade de novos investimentos.
COMO RESOLVER O PROBLEMA DA FALTA DE MÃO DE OBRA? A qualificação de mão-de-obra sempre foi um dos pilares do Promef e isto tem sido feito, com a criação de centros de formação e treinamento, como ocorreu no Estaleiro Atlântico Sul. Temos convênios com as principais instituições de pesquisa e centros universitários do País, incentivamos a inovação em nossa força de trabalho, mantemos contatos regulares com os principais polos mundiais de construção naval, estimulando os estaleiros a adotarem a mesma atitude. Sem um esforço crescente de qualificação e modernização, os estaleiros não conseguirão falar a língua do mundo, que não é o chinês nem o inglês, mas a competência.
NA SEGUNDA-FEIRA
Parlamentares vão a Ipojuca
O objetivo da visita ao Estaleiro Atlântico Sul é suprimir dúvidas quanto à poluição sonora e sobre os impactos ambientais
Comitiva de parlamentares cearenses formada pelo líder do governo do Estado na Assembleia Legislativa, Nelson Martins, pelos deputados estaduais Ely Aguiar, Tomás Holanda e Heitor Férrer; pelos vereadores Plácido Sobreira e Carlos Dutra e pelo presidente da Câmara Municipal de Fortaleza, Salmito Filho, visitam na próxima segunda-feira as instalações do Estaleiro Atlântico Sul, no município de Ipojuca, distante 75 quilômetros de Recife. Organizado por Nelson Martins e por Salmito Filho, o grupo vai contar ainda, com um diretor da Agência de Desenvolvimento Econômico do Ceará (Adece), com um representante da Prefeitura de Fortaleza, além de duas pessoas da comunidade, um contra e um a favor da construção do Estaleiro Promar Ceará, na Praia do Titanzinho. A comitiva viaja às sete horas da manhã e só retorna à noite. Por todo o dia, explica Nelson Martins, o grupo pretende conhecer as instalações e o funcionamento do Atlântico Sul, considerado o maior estaleiro da América Latina e que tem como sócio a PJMR, a mesma empresa que pretende construir o Promar Ceará. "Nosso objetivo é conhecer tudo para dirimir divergências quanto à poluição sonora e os impactos ambientais no entorno; o processo tecnológico de construção e de pintura dos navios e o tratamento que é dado aos efluentes, ao lixo e ao aço", explica.
Para ele, será importante conhecer ainda, os tipos de navios que o estaleiro constrói, tendo em vista que a tecnologia empregada em Ipojuca será a mesma adotada no Serviluz. "Queremos comprovar ´in loco´, que a mão-de-obra da área foi aproveitada e saber quanto tempo levou para ser capacitada para o estaleiro", destacou Martins. Segundo ele, todas as despesas com a viagem serão custeadas pela Assembleia Legislativa e pela Câmara Municipal. "A Assembleia tem interesse em conhecer o Atlântico Sul, devido a importância econômica que o Promar Ceará pode representar para a economia do Estado", fala.
O QUE ELES PENSAM SOBRE O PROMAR CEARÁ NO TITANZINHO
"Se fizermos o uso correto do tempo, agilizando a construção do estaleiro do Titanzinho, quando a Companhia Siderúrgica do Pecém estiver na segunda etapa do seu projeto, tendo evoluído da produção de placas para a de chapas de aço, já estaremos preparados para avançar no processo de construção naval no Ceará." (Roberto Macedo - Presidentes da Fiec)
"Não temos e não teremos posicionamento sobre a localização do estaleiro na Praia do Titanzinho. Não conhecemos estudos de impacto ambiental e estudos preliminares para definir a sua localização. Não sabemos nada sobre profundidade, proximidade da comunidade. Deve existir alguma coisa neste sentido." (Jesualdo Farias
Reitor da UFC)
"Para que se construa um estaleiro nos moldes do projeto do Promar Ceará para a condição de construir navios gaseiros, com o calado e a tonelagem exigidas, só temos a Praia do Titanzinho como única área disponível no Estado. Os impactos ambientais não seriam problema. Há o controle dos meios ambientais." (Erasmo Pitombeira
Presidente da Ceará Portos)
Iniciativa privada investe em qualificação
O treinamento para o EAS começou em meados de 2007, antes do início da construção do estaleiro
Investir em capacitação de mão-de-obra em grande escala pode ser, para a iniciativa privada, uma iniciativa de risco, já que não há a garantia de que esse pessoal treinado se fidelize ao empreendimento, podendo migrar para outras empresas. Mesmo assim, essa foi a decisão tomada pelas empresas que formam o consórcio do Estaleiro Atlântico Sul e, pelo menos até agora, vem dando certo.
NOVA MENTALIDADE
"Quando começamos aqui, não havia mão-de-obra qualificada. Pensamos em trazê-la do Rio de janeiro, de São Paulo, de outros lugares, mas vimos que o ideal, apesar do risco, era preparar os trabalhadores pernambucanos", afirma o diretor administrativo e de RH do EAS, Gerson Beluci. "A capacitação foi melhor, porque estamos criando uma nova mentalidade, sem vícios e com o conceito de responsabilidade socioambiental", completa. O treinamento para o EAS teve início em meados de 2007, antes do início da construção do estaleiro, e a primeira turma foi admitida em dezembro do mesmo ano. Foram 360 funcionários, pernambucanos.
O treinamento é feito em três fases: primeiro, há um nivelamento escolar, onde os aprendizes passam por 100 horas/aula de Português e outras 100 horas de Matemática.
Após isso, é iniciado um treinamento no Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) de Cabo de Santo Agostinho, onde eles aprendem os princípios básicos do trabalho em indústria e contam com uma bolsa de incentivo de R$ 120.
São noções básicas, teóricas e práticas, das atividades de soldador, montador, eletricista e pintor. Após isso, os alunos são avaliados e depois selecionados, indo então para o Centro de Treinamento (CT) do estaleiro, onde já entram como funcionários contratados. "O resultado tem sido muito bom, e temos tido um aproveitamento de 95% desses alunos. Até agora, nós já possuímos 2.700 aprendizes já admitidos", informa.
MINI-ESTALEIRO
O CT é como um mini-estaleiro, localizado também dentro do complexo de Suape, onde os iniciantes tem uma noção de como funciona o estaleiro e aprendem, na prática, a sua atividade. No início da semana, a sua décima turma foi formada e, a partir de segunda-feira, chegam mais 196 aprendizes. O centro foi criado e está sendo mantido pelo estaleiro, mas, a partir do ano que vem, será passado ao Governo do Estado, que se responsabilizará pela formação para o mercado.
Para as funções que exigem maior conhecimento e experiência, foram tomadas outras estratégias. "Nós fomos ao mercado de Pernambuco e de todo o Brasil. Pegamos currículos e fizemos seleções. Além disso, também temos feito parcerias com universidades e Cefet [Centro Federal de Educação Tecnológica].
Fazemos convênios para estágios, e depois contratamos esses profissionais", explica. "Os treinamentos estão sendo feitos, tem gente nas universidades sendo preparada. Para ter sustentabilidade, tem que ter continuidade. Acredito que está equacionado a questão da mão-de-obra, com profissionais pernambucanos à disposição", garante o diretor. (SS)
MERCADO PROMISSOR
Setor caminha para demanda crescente
Produção petrolífera existente, necessidade de renovação da frota e o pré-sal prometem aquecer mais a procura
O cheiro forte de aço fundindo e o barulho alto de soldagem remetem a uma oficina mecânica, mas em grandes proporções. Tudo no Estaleiro Atlântico Sul (EAS) é superlativo: são nada menos que 24,5 mil toneladas de aço demandados, apenas na primeira embarcação, e 400 pessoas trabalhando diretamente no dique seco, local onde se ergue o navio, e coração do estaleiro. O "tanker" Suezmax, apesar de ser lançado ao mar até o fim deste mês, ainda não está concluído. Cerca de 70% de suas obras estão prontas, e devem ser finalizadas até agosto, quando o navio será entregue à Transpetro, subsidiária de logística e transporte da Petrobras. E esta é apenas a primeira encomenda de outras 21 que o EAS tem em sua carteira.
Criado juridicamente com o fim específico de disputar as encomendas do Programa de Modernização e Expansão da Frota (Promef) - com duas etapas concluídas -, o EAS disputou com estaleiros já fisicamente existentes e ganhou, no primeiro lote do programa, a licitação para 10 tankers Suezmax e cinco tankers Aframax (com capacidade para mais de 800 mil barris de óleo). No Promef II, o gigante pernambucano angariou mais quatro tankers Suezmax de posicionamento dinâmico (tecnologia que permite que a embarcação fique estável mesmo sem a utilização de âncoras) e três Aframax do mesmo tipo. Com isso, o EAS hoje possui a maior carteira de encomendas do programa. E, além disso, o estaleiro pernambucano ainda irá construir o casco da plataforma P-55 da Petrobras.
Assim como o EAS, o Promar Ceará também surgiu com o objetivo de disputar licitação da Transpetro, e apresentou o menor preço para a construção dos oito navios gaseiros previstos no Promef I e II. Somente a construção destas embarcações já justificaria a instalação do empreendimento, mas as perspectivas para o setor no futuro próximo são auspiciosas, e dão mais ânimo aos investidores da indústria naval.
Isso porque a frota nacional tem necessidade de renovação, e a vida útil das embarcações é de, em média, 17 anos. A Petrobras gasta aproximadamente US$ 10 bilhões por ano somente com o afretamento de navios, daí a necessidade de se construir embarcações nacionais. Além disso, há a descoberta de novas reservas de petróleo com o pré-sal, o que implica em novos investimentos na aquisição de embarcações e plataformas para a exploração da nova província petrolífera.
De 2002 a 2009, a demanda firme no Brasil é de 137 embarcações, entre obras licitadas, contratadas e em licitação. Já a demanda anunciada no Brasil é de mais 210 embarcações. Tudo isso cria um mercado promissor para a indústria naval para os próximos anos. E tanto o EAS, como o Promar Ceará, caso seja instalado no Estado, ficam dentro do chamado "triângulo de ouro" da indústria naval. Eles estão entre o Golfo do México, a costa oeste da África e o sudeste brasileiro, áreas de grande produção petrolífera.
Realidades transformadas
De cortador de cana a líder de logística, e de "fazedor de bicos" a operador de ponte, exemplos de superação
Izaque José, de 32 anos, conheceu cedo o trabalho, e de forma árdua. Aos sete anos, ele já estava no canavial, cortando cana-de-açúcar sob o escaldante sol da Zona da Mata pernambucana. Foram 10 anos assim. O salário, como é comum na atividade, era baixo, às vezes nem existia: o pagamento era feito mesmo com alimentos, que ele levava para a família.
Fugindo dessa realidade e passando por auxiliar de serviços gerais e empilhador em empresas da capital, Izaque acabou parando no Estaleiro Atlântico Sul. Parando, aliás, talvez não seja o melhor verbo: o ex-cortador de cana angariou posições e hoje é líder de grupo na área de logística do estaleiro. E quer crescer mais.
OPORTUNIDADE PARA APRENDER
Atualmente, Izaque, que entrou para o quadro do EAS em junho de 2008, coordena 20 pessoas. Com a experiência que tinha como empilhador, acabou exercendo, ainda que por curto tempo, a mesma função no estaleiro. Fez treinamento e aprendeu a trabalhar com nota fiscal, recebendo, identificando e guardando mercadorias. Depois, foi motorista de caminhão, e aprendeu a operar guindastes, através de um curso de cerca de R$ 1.800, que ele fez de graça. "Achava que o caminhão era o máximo que podia chegar, mas o chefe me fez uma proposta diferente", conta. Carlos Fontes, coordenador de Logística da empresa, percebeu que o funcionário tinha perfil para evoluir. "Ele tem iniciativa, é organizado e tem confiança. Então o propus que fosse liderar equipe na logística", recorda. E não é que Izaque aceitou.
Hoje, ele recebe R$ 941, mas já foi informado sobre um aumento de salário. "Todo mundo ficava falando do estaleiro, e eu quis saber como entrar lá. Recebi uma indicação de uma amiga, e foi uma alegria só. Quero continuar crescendo na empresa, me preparando cada vez mais", avisa Izaque com satisfação.
EMPREGO COM CARTEIRA
História de superação semelhante foi vivida por José Honório, 20. Ele é morador da Ilha de Tatuoca, junto com outras 51 famílias que vivem lá. Antes de chegar ao quadro funcional do EAS, ele fazia bicos em tudo o que aparecia: pescava peixes e pegava manga e caju para venda, fazia as vezes de ajudante de pedreiro quando surgia a oportunidade e realizava até gambiarra de eletricidade para ganhar dinheiro. Renda fixa, não sabia ainda o que era.
Através do Programa Tatuoca, realizado pelo EAS para inclusão, elevação dos níveis de escolaridade e acesso ao mercado formal dos moradores da ilha, Honório foi recrutado.
Atualmente, 44 pessoas da comunidade trabalham no estaleiro. "Trabalhei na logística e no armazenamento, fazendo estocagem de aço. Daí, passei de auxiliar para operador. Depois fiz um curso de operador de ponte rolante e, hoje, trabalho com isso. Atualmente, tenho carteira assinada, possuo uma profissão e um certificado", comemora o profissional as conquistas alcançadas. (SS)
CARÊNCIA DE EXPERIENTES
EAS busca profissionais no Japão
Apesar de estar formando pessoal para trabalhar nas atividades de construção naval, o Estaleiro Atlântico Sul ainda enfrenta dificuldades para encontrar um corpo de profissionais com experiência na atividade para liderar os trabalhos que surgem no empreendimento.
Esta carência está fazendo com que o EAS busque mão-de-obra fora do País. Desde dezembro do ano passado, foi iniciada uma seleção de 200 dekasseguis (trabalhadores estrangeiros residentes no país nipônico) brasileiros e, até agora, já existem 80 trabalhando no estaleiro pernambucano.
Um deles é Hamilton Hitisuo Hatada, carioca, filho de japoneses, que aos 26 anos deixou o Brasil em busca de oportunidades no Japão.
"Eu trabalhava na gerência de uma loja de pneus em São Paulo. Após três assaltos, o negócio quebrou e, como havia muita procura por mão-de-obra para peças de carro no Japão, fui pra lá", conta, esclarecendo que, à época, já falava japonês, no entanto, só não sabia ler ou escrever na língua.
Depois de um tempo atuando nessa área, ele entrou em um estaleiro no Japão. Fez escolinha e começou na área de montagem. Era um estaleiro de grande porte, que fazia navios de transporte de carro. Cada embarcação tinha capacidade para 5.500 carros, em 11 andares", lembra. Com experiência em dois estaleiros, ele passou de montador para encarregado-líder de montagem. "Foi quando, no final do ano passado, vi na internet que o estaleiro de Pernambuco estava selecionando dekasseguis. Eu e mais quatro colegas entramos em contato. Fiz o primeiro contato em novembro do ano passado e vim em fevereiro", diz.
Hoje, Hamilton trabalha como supervisor de montagem no EAS, com um salário de R$ 6 mil. "Lá, eu ganhava cerca de R$ 9 mil, mas, como o custo de vida lá é mais caro, aqui tenho melhor padrão de vida", pondera.
"Está valendo muito a pena a troca. Lá, a gente sofria preconceito, mesmo sendo descendente de japonês. E eu estava preocupado em dar um rumo aos meus filhos, por conta disso", explica o profissional.
As contratações ainda não se encerraram. O EAS continua sua seleção por profissionais brasileiros que trabalham no Japão e espera fechar as 200 vagas reservadas a estes até o fim deste semestre.
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