Notícia

 

Ano II – nº 101 – Fortaleza/CE – edição: 10.03.2010

 

Siderurgia: Benjamin Steinbruch quer criar uma única mineradora de ferro e vender até 25% do capital em IPO
CSN promete planos ousados e levar cinco ativos à bolsa

VALOR ECONÔMICO - Nem parece que Benjamin Steinbruch, principal acionista, presidente do conselho e da diretoria executiva da Cia. Siderúrgica Nacional (CSN), tomou um tranco quinze dias atrás, ao perder mais uma grande chance de internacionalizar sua empresa, como vem prometendo ao mercado há vários anos. A perda da cimenteira portuguesa Cimpor, ativo pelo qual ofereceu quase US$ 6 bilhões, para ele já é uma página virada. Ontem, em reunião com analistas de bancos em São Paulo, o empresário, corroborado por seus principais executivos, garantiu que vai entregar uma companhia com o dobro do tamanho em três anos e abrir o capital das suas cinco unidades de negócio - aço, mineração de ferro, cimento, logística e cimento. "A hora é agora", afirmou, referindo-se à maré favorável do mercado para oferecer na bolsa de valores ativos que serão transformados em novas empresas.
Steinbruch justifica isso usando um antigo lema seu, de que "a soma das partes será maior do que o todo". Para ele, da forma como está até agora, o mercado não enxerga o valor justo para a companhia. Por exemplo: ele considera natural que somente o ativo de minério de ferro, agregado por ferrovia e porto, valha em torno de US$ 20 bilhões. A CSN inteira, com energia, cimento, ferrovias, aço e minério de ferro, é avaliada atualmente em US$ 26 bilhões.
De concreto mesmo, a CSN parece ter para realizar neste ano a oferta pública de ações (IPO, na sigla em inglês) da mina Casa de Pedra, também prometida há alguns anos. Para isso, pelo menos um importante passo foi dado: a cisão desse ativo da empresa-mãe, assim como as áreas de logística e portuária. Esse processo deve ficar pronto até o fim deste mês, como garantiu o diretor financeiro da companhia, Paulo Penido Marques.
Na visão do analista Pedro Galdi, da SLW Corretora, Steinbruch deixou claro que a CSN voltou sua mira a novos negócios e "deixou um pouco de lado" a siderurgia. "O foco está em cimento e minério. Mas o interessante é que essas três áreas têm grande sinergia", ponderou. O plano do empresário é formatar uma mineradora única com capacidade para fazer 84 milhões de toneladas por ano. Para isso, negocia a fusão de Casa de Pedra com a controlada Namisa, da qual tem 60% do capital e seus sócios - usinas de aço do Japão e Coreia -, os 40% restantes. "Eles têm a preferência; por isso, lhes demos um prazo para decidir". De qualquer forma, com os parceiros asiáticos ou sem eles, a ideia é ir à bolsa até o fim de junho.
Mas ter parceiros estratégicos é considerado fundamental para o empresário. Ele observa que, com isso, assegura-se mercado para o minério, além de expertise em tecnologia e entrada de capital para os investimentos, que são pesados. A ideia é que esse sócios tenham em torno de 20% e na bolsa sejam oferecidas de 20% a 25% das ações. O controle ficará com a CSN, naturalmente.
O plano de Steinbruch, que prevê investimentos na CSN de R$ 3 bilhões ao ano de agora até 2014, não para por aí. "Estamos nos estruturando para ter uma empresa de 150 milhões de toneladas de minério de ferro", afirmou. "Não se surpreendam se ocorrerem algumas operações de compra ou de fusões de ativos na região", disse, lembrando que há dois anos havia muita dúvida por parte do mercado sobre seus planos nesse negócio e que hoje a CSN já é a segunda maior exportadora do país, atrás da Vale, e já está pronta para vender 40 milhões de toneladas este ano.
Com previsão de déficit na oferta mundial de minério no mundo este ano e aperto nos próximos, com crescente demanda da China e aumento da produção de aço em outros países da Ásia, Europa e Américas, os preços do produto para este ano podem ter alta na casa de 90% ou mais. Com isso, o preço de referência médio do ano passado, em torno de US$ 55 a tonelada, poderá ficar próximo do praticado no mercado à vista, que gira em torno de US$ 115 a tonelada, valor FOB porto Brasil. "As mineradoras estão buscando uma correção do preço", afirmou Jaime Nicolatto, diretor de mineração da CSN.
Galdi observou que o minério de ferro vem ganhando mais proporção no negócio das siderúrgicas, uma vez que a tendência natural da commodity é de alta. "As empresas querem se garantir e vão investir mais nisso", afirmou. Mas o caso da CSN parece ir além disso. Steinbruch, que foi dono da Vale por alguns anos, enxergou nessa área um negócio que hoje ganha muito mais atenção - e tem margem bem superior - que o aço dentro da companhia, apesar de este ainda responder por 72% da receita da empresa.
Na outra vertente, Steinbruch informou ontem que pretende investir cerca de US$ 800 milhões nos próximos três anos no Brasil para ter um presença forte no mercado de cimento. Esse plano prevê a duplicação da atual fábrica de Volta Redonda (RJ), que entrou em operação no ano passado, e a construção de três novas - no Nordeste, no Centro-Oeste e no Sul, cada uma com capacidade de 1 milhão de toneladas de produção. "Com isso, vamos ter capacidade além de 6 milhões de toneladas a partir de 2013, mais do que a Cimpor faz hoje no Brasil", afirmou o empresário. "A vantagem da compra é que o crescimento seria imediato, mas em valor, vamos gastar menos nas novas fábricas - US$ 150 a US$ 200 por tonelada".

Balanços: Previsão de forte reajuste no preço do minério é sinal de retomada.
Revisões positivas predominam para mineração e aço

VALOR ECONÔMICO - Vilões de 2009 em termos de resultado das companhias abertas, os setores de mineração e siderurgia já começam a atrair a atenção dos investidores em 2010.
Embora os números do quarto trimestre do ano passado ainda tenham mostrado queda na comparação anual, o tom das empresas em seus relatórios mudou radicalmente. Enquanto um ano atrás os textos tinham como foco a crise internacional e a suspensão de investimentos e da produção, hoje as empresas falam em casa arrumada, retomada dos investimentos e expectativa de alta na demanda e nos preços.
Segundo Carlos Constantini, chefe da área de análise da Itaú Corretora, nos últimos dois meses diversos analistas revisaram para cima as recomendações para as ações das empresas do setor. "Nossa carteira está com recomendação para aplicação 'overweight' (acima da média do mercado) em siderurgia. E desde o começo da crise a gente não fazia isso", afirma o analista, acrescentando que não é exceção à regra neste movimento.
Nessa linha, Constantini chama atenção para o fato de que, à medida que as companhias abertas de forma geral divulgaram os resultados referentes a 2009 e os investidores puderam conversar com os executivos sobre as projeções para os números deste ano, as recomendações foram revisadas positivamente.
Além de mineração e siderurgia, ele menciona que as expectativas ficaram mais otimistas para os setores de consumo e alimentos, construção e papel e celulose. Para as empresas de telecomunicações e de energia, ele diz que as revisões neste início de ano foram mistas, com algumas para cima e outras para baixo.
Em relação às exportadoras, Constantini avalia que a situação melhorou, já que a maioria dos analistas prevê agora que o câmbio deve ficar estável neste ano, em torno de R$ 1,80. Antes, a projeção era de valorização do real, o que prejudicaria a receita dessas companhias.
De modo geral, portanto, a visão do chefe da área de análise do Itaú é de resultados em alta para as companhias abertas em 2010, com expectativa de aumento de 20% no lucro líquido das empresas com ações listadas no Ibovespa.
O único setor que ainda patina é aquele ligado a bens de capital. "Existe a teoria de que esse é o ultimo setor a sair da crise, já que as empresas têm que voltar a investir para haver recuperação. Talvez por isso as revisões ainda não tenham acontecido", afirma Constantini, que cita os números positivos de investimento estrangeiro direto e também o anúncio de projetos de longo prazo como fatores que devem motivar uma retomada do setor. Do lado negativo, há o aumento das importações de bens de capital.
Como pano de fundo para a aposta em mineração e siderurgia está a recuperação da demanda, com previsão de elevação dos preços dos produtos. Para o minério de ferro, por exemplo, as apostas são de uma elevação significativa do preço. O Bradesco prevê alta de 96%, o Itaú fala em reajuste de 70% e a Banif Securities projeta elevação de 46%.
A CSN, que tem produção própria de ferro, mencionou ontem que não descarta aumento de 90% no preço do minério em 2010.
Em relação ao setor siderúrgico, o consultor Germano Mendes de Paula, que também é professor de Economia da Universidade Federal de Uberlândia, Minas Gerais, lembra que os incentivos do governo federal para o setor automobilístico foram fundamentais para evitar uma paralisia total das empresas em 2009, já que o mercado externo minguou.
"Mas o fim do ano foi muito superior ao que se esperava no seu início e as perspectivas para 2010 são de retomada da demanda", avalia Mendes de Paula. Ele acredita que neste momento as siderúrgicas estão reavaliando os projetos de expansão, que não faziam mais o menor sentido durante a turbulência global e foram deixados de lado. A Gerdau, por exemplo, promete investir R$ 9,5 bilhões em cinco anos.


 

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